TOPO
ESTATURA COMO DADO FUNDAMENTAL EM ANTROPOLOGIA FORENSE: DEFININDO UM PADRÃO PARA ESTIMATIVA DE ESTATURA NO BRASIL - Perspectivas
fade
3613
single,single-post,postid-3613,single-format-standard,eltd-core-1.0,perspectivas alto grau-ver-1.0,,eltd-smooth-page-transitions,ajax,eltd-grid-1300,eltd-blog-installed,page-template-blog-standard,eltd-header-vertical,eltd-sticky-header-on-scroll-up,eltd-default-mobile-header,eltd-sticky-up-mobile-header,eltd-dropdown-default,wpb-js-composer js-comp-ver-4.12,vc_responsive
fisionomia de 4 paises homens 1

ESTATURA COMO DADO FUNDAMENTAL EM ANTROPOLOGIA FORENSE: DEFININDO UM PADRÃO PARA ESTIMATIVA DE ESTATURA NO BRASIL

STATURE AS ELEMENTARY DATA IN FORENSIC SCIENCE: A STANDARD FOR STATURE ESTIMATION IN BRAZIL

José Jozefran Berto Freire

Diretor Científico da Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas

RESUMO

É fato conhecido que não há padrões brasileiros para estimativa da estatura. Enquanto as pesquisas nacionais em Antropologia Forense sobre sexo, idade e peso avançaram, a pesquisa sobre estatura não evoluiu. Partindo-se da idéia que a estatura é dado fundamental em Antropologia Forense, sabe-se também que, nas perícias sobre ossadas humanas, no Brasil, são utilizadas tabelas e fórmulas de regressão elaboradas fora do país, com padrões raciais definidos, em estudos onde se enfatiza, além do sexo, a questão racial. Portanto, não atenderiam à miscigenação racial presente no Brasil. Nesta pesquisa, iniciou-se uma série de estudos sobre estatura, na busca de um padrão nacional. Foi constituída uma amostra de 216 cadáveres, sendo 116 masculinos e 100 femininos. Escolhemos trabalhar com o cadáver, pela possibilidade de se estabelecer a estatura previamente e assim, fazer-se a correlação com as medidas de ossos longos e, portanto, com maior possibilidade de se estabelecer a relação medida de ossos longos e estatura. Foram medidos os ossos úmero, rádio, fêmur e tíbia – pois participam efetivamente da estatura, sob o ponto de vista anatômico. A amostra foi submetida a análise estatística através de cálculos de correlação linear, regressão linear e estabelecimento de intervalo de confiança, para estimativa de estatura. Obtiveram-se, assim, fórmulas de regressão com padrões nacionais que, devidamente aplicadas, auxiliarão o perito brasileiro na estimativa da estatura, quando necessária. Foi constatada, finalmente, a necessidade de novos estudos, onde se contemplem outras variáveis deste tema, como, por exemplo, os biótipos.

Palavras-chave: Estimativa de estatura, antropologia forense, medicina legal

ABSTRACT

It is well-known that there are no Brazilian standards for stature estimates. While the national researches on Forensic Anthropology about sex, age and weight progressed, the research on stature did not. Based on the idea that the stature is an essential piece of information in Forensic Anthropology we also know that in Brazil, in the human bone investigation the tables and regression formulas used are elaborated abroad, with defined racial standards in which, besides the sex, the racial issue is emphasized. Therefore, they do not meet the racial mixture present in Brazil. In this present research, a series o f studies about statures was started in search of a national standard. A sample of 216 corpses, 116 mal e and 1 00 female, was taken. W e chose to work with corpses, due to fact that it was possible to establish the stature previously and thus, to make the correlation with the measurements of long bones and therefore, with a bigger possibility of establishing the relation long bones and stature. The bones measured were the humarus, the radius, femur and tíbia because they play an effective part in the stature, from the anatomic point of view. The sample was submitted to statistical analysis through linear correlation calculation, linear regression and the establishment o f confidence intervals, to estimate the statures. Thus, regression formulas were obtained, with national standards which property applied will help the Brazilian expert in the estimate whenever necessary. Finnaly, we observed that deeper studies on variables ofthis very theme such as biotypes prove to be necessary.

Keywords: Stature estimation, forensic anthropology, legal medicine

 

1. INTRODUÇÃO

1.1. CONCEITUAÇÕES

A palavra ANTROPOLOGIA apareceu na época de Aristóteles, em torno do século IV AC, sob a forma anthrõpológos, significando “o que trata do homem”. Por volta de 1595, surgiria, por analogia, o termo anthrõpología, como adaptação latina moderna na forma anthropología. A origem do vocábulo deriva do grego ánthrõpos (homem sem distinção sexual) e logía (tratado, discurso, ciência). O trabalho de Otto Casmann, publicado entre 1594 e 1595 e denominado “Psycologia anthropologica, sive Animae humanae doctrina e Anthropologia: pars li, hoc est de fabrica humani corporis” (Psicologia antropológica, ou Doutrina da alma humana e Antropologia: parte li, isto é, sobre a textura do corpo humano) apresenta a primeira citação do termo antropologia na literatura ocidental (Haddon, 1910). A palavra antropologia, no seu sentido mais amplo, representaria o estudo do homem na sua totalidade, física e socio-culturalmente, abrangendo o enfoque de outras ciências que têm como centro o ser humano. Entretanto, a história mostra que foi impossível a manutenção desta abrangência no sentido da práxis científica.

Inúmeros trabalhos científicos acabaram por subdividir a Antropologia, conforme o enfoque cultural, social, físico, econômico, político e das sociedades complexas.

A antropologia cultural tem como meta o estudo relativo à herança cultural de cada agrupamento humano em seus diversos ambientes e aspectos culturais.

Cabe à antropologia social o estudo das relações e processos sociais que ocorrem nas sociedades humanas. Atribui-se aos antropólogos Bronislaw Malinowski e A.R. Radcliffe-Brown a sistematização teórica da antropologia social.

A antropologia econômica vem moldando sua estrutura teórica segundo um processo que se iniciou pelo estudo das sociedades primitivas e sociedades camponesas, evoluindo para o estudo das sociedades industrializadas e complexas que compõem o mundo atual.

A antropologia política tem como objetivo ampliar o conceito da política, independente do conceito de estado, definindo as diversas tipologias de organizações políticas bem como educar o cidadão na busca de mecanismos reguladores dos temas que interessam ao conjunto de pessoas que compõem a sociedade humana. Os trabalhos Economia e Sociedade, publicado em 1922 e a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, publicado entre 1904 e 1905, de Max Weber, são referenciais da interface política e antropologia.

A antropologia das sociedades complexas refere-se a um ramo recente do estudo antropológico que tem estudado com profundidade as sociedades urbanas nos seus múltiplos aspectos e problemas, especialmente os chamados fenômenos de adaptação humana a esquemas sociais que impelem pessoas a um individualismo dentro de uma multidão.

Segundo Juan Comas (1966), cabe à antropologia física o estudo das estruturas do corpo, objeto do presente estudo. Atribui-se ao trabalho 5 “Manual de Antropologia Física” publicado no México, em 1966 por Juan Comas, como a mais completa compilação de textos a respeito desse assunto. O autor apresenta relatos a respeito da antropologia física desde a era pré-cristã até a idade moderna. Autores citam com muita ênfase a figura de Blumenbach (1752-1840) tido como fundador da antropologia física. Este ramo da antropologia inicialmente era visto mais como técnica do que estudo que contivesse um embasamento teórico sustentável. A antropologia física evoluiu a partir de estudos que tinham como objetivo a osteologia e a paleoantropologia.

Deve-se ressaltar o fato de que, dentre os princípios básicos da antropologia, o método comparativo ainda é predominante nas pesquisas. Tomando-se esse método como elemento referencial, os pesquisadores procuraram estabelecer vínculos com outras ciências envolvidas nestes estudos. Além da osteologia e da paleoantropologia, inúmeros estudos têm sido realizados e envolvem temas como: genética de populações, antropometria e antroposcopia, anatomia comparada, citogenética, demografia, dermatóglifos, fisiologia, patologia, etc.

 

1.2. PALEOANTROPOLOGIA

Com objetivo de se fundamentar o presente estudo, procurou-se colher informações que pudessem evidenciar a importância da estatura nos estudos antropológicos.

A paleoantropologia, como ciência dos hominídeos fósseis, mostra uma grande preocupação dos pesquisadores quanto a este detalhe. Ao paleoantropólogo exigem-se conhecimentos de anatomia, domínio da antropologia fisica e cultural e ainda conhecimentos de estratigrafia.

Presume-se que o surgimento dos primeiros hominídeos tenha se dado há 5 milhões de anos atrás, ou seja, no denominado período Plioceno. Desse período até o aparecimento do homo sapiens, surgido há cerca de 35.000 anos atrás, os pesquisadores procuraram sempre em suas descobertas, referir-se à estatura do hominídeo estudado.

Existem controvérsias entre os pesquisadores sobre a sistemática de classificação dos primatas. No entanto, é aceita a seguinte classificação básica como referencial das pesquisas. Tem-se as subordens Lemuroidea, Tarsioidea, Platyrrhini e finalmente a subordem Catarrhini que reúne diversas superfamílias, entre estas os Pongidae e os hominidae. Nestas duas últimas famílias, os pesquisadores buscaram o substrato científico para suas buscas. Os pongídeos deram origem aos gêneros pongo (orangotango) e pan (chimpanzé e gorila). Os hominídeos deram origem a dois gêneros: Homo e Australopithecus (este último extinto). O gênero Homo reúne varias espécies incluindo-se o Homo sapiens. Havia consenso entre os paleoantropólogos que os hominídeos mais antigos eram os Australopithecus, com cerca de dois milhões de anos, descobertos em 1924, por Raymond Arthur Dart. O hominídeo descoberto foi denominado Australopithecus Africanus, que alcançava a estatura de 1,20 metros e com 400 c.c. de cérebro. Em 1938, Robert Broom descobriu o Australopithecus Robustus, com 1,50 metros de estatura e 550 c.c. de cérebro. O Ardipithecus ramidus, descoberto em 1994, por White e Wood, com 4, 4 milhões de anos e medindo 122 cm de estatura. O Homo habilis, descoberto em 1964 por Louis Leakey apresentava 127 cm de estatura e 650 c.c. de cérebro. O Homo erectus teve como descobridores, em épocas e em diversos sítios, os pesquisadores Eugene Dubois, Davidson Black e Gustav Heinrich von Koenigswald foi denominado de Homo erectus pekinensis e tinha cerca de 1,50metros de estatura e 750 c.c. de cérebro. Em seguida, os paleontólogos descrevem uma fase de hominização, com as descobertas dos Homo sapiens neanderthalensis (1,68m de estatura e cerca de 1.450 c.c. de cérebro), Cro-magnon, Grimaldi, Chancelade, Steinheim, etc. e que não divergem muito quanto à estatura do homem moderno. É interessante notar que sem se estabelecer qualquer relação entre elas, à medida que os hominídeos evoluíram, a estatura e a capacidade craniana foram aumentando.

Falta muito para se conhecer o processo filogenético. Em 1998, o paleontólogo britânico Ronald J. Clarke, pesquisando nas cavernas de Sterkfonteim, na África do Sul, encontrou um esqueleto completo de um hominídeo, que foi denominado Homem de Sterkfonteim, com 1,20 metros de estatura, com sexo ainda não definido e apelidado de Pezinho, devido ao tamanho do seu hálux, que funcionava como um polegar e lhe permitia caminhar melhor. Na ocasião, segundo relato da imprensa, o hominídeo descoberto situar-se-ia entre o Ardipithecus ramidus (hominídeo mais antigo conhecido com 4,4 milhões de anos) e a Australopithecus afarensis (conhecida como Lucy (107 em. de altura) e encontrada na Etiópia, em 1974).

Note-se a importância dada à estatura dos hominídeos descobertos nas pesquisas paleontológicas, assim como são importantes as relações entre os ossos longos e a estatura, assim como no caso do fêmur dos hominídeos a capacidade de deambular na forma ereta.

Sabe-se que, nas famílias de hominídeos mais recentes, a disposição do fêmur em nada diferia daquelas existentes no homem moderno. As posições controversas dos diversos pesquisadores da filogênese humana sobre a origem comum dos primatas, sobre a ocorrência ou não do processo de hominização em diversas linhagens evolutivas, acentuaram-se.

Pesquisas recentes, especialmente aquelas realizadas na África, parecem evidenciá-la cada vez mais como berço da humanidade e ficou demonstrada a convivência entre os Australopithecus e os primeiros grupos do gênero Homo. No estudo das arcadas dentárias, foram encontradas semelhanças e tais semelhanças levaram inclusive ao famoso episódio ocorrido em Piltdown (Inglaterra). O fóssil descoberto naquela localidade, em 1912, e denominado Ewanthropus dawsoni, cujas características eram peculiares, foi incluído como um representante dos hominídeos. Seria ele o chamado “elo perdido”, entre o ramo hominídeo e os demais ramos dos primatas. Em Piltdown, foi encontrada uma calota craniana similar à do homem moderno e uma mandíbula simiana. Entretanto, em 1950, a Revista Nature divulgou a existência de uma fraude. Estudos realizados naquele fóssil mostraram que a calota craniana era humana e a mandíbula pertencente a um orangotango. Os dentes haviam sido limados e a peça tratada com bicarbonato de potássio para que tivesse a aparência de osso antigo. A busca pelo elo perdido não diminui devido a este episódio. Outros fatos científicos foram se avolumando e constituindo a apaixonante ciência da Paleontologia, que tanto tem contribuído para o conhecimento humano.

Theodosius Grigorievich Dobzhanski, Pensador e pesquisador da genética de populações e defensor da tese do “monofiletismo, em seu livro Genética do Processo de Evolução, de1970, refere-se a uma única hipótese aceitável para a evolução humana e origem do homo sapiens. Segundo o autor, a evolução humana se daria a partir de uma única forma ancestral, pois existindo uma só forma viva de hominídeo, ela não poderia ser originada de duas ou mais espécies reprodutivas isoladas. A evolução da genética e da cito genética com certeza em muito poderão contribuir para o esclarecimento das teses que procuram explicar a filogênese humana.

 

1.3. ANTROPOMETRIA E ANTROPOSCOPIA

A antropometria e a antroposcopia, durante longo tempo, foram consideradas muito mais técnicas do que propriamente um ramo da antropologia fisica. Para Dorland, apud Arbenz (1988), cabe à antropometria, 13 a “mensuração das dimensões humanas para obter a expressão quantitativa da forma do corpo” (p.163).

De acordo com Arbenz (1988): “A Antropologia física é o estudo das variações qualitativas e quantitativas dos caracteres humanos. E assim sendo, pode-se admitir duas divisões: a antropometria e a antroposcopia. Conhecido o objeto da Antropologia Física, conhecidos seus objetivos ou finalidades, bem compreendidas, por sua vez, as finalidades da Medicina Legal, não parece difícil admitir a existência de uma Antropologia Física Médico-Legal.” (1988, p.113)

Esta tese defendida por Arbenz, na verdade concede outro nome, ou ainda tenta encontrar outro significado, ou seja, tenta ressignificar a Antropologia Forense. O que seria então a Antropometria? Segundo Frassetto, apud Arbenz, seria o estudo das variações quantitativas e qualitativas dos caracteres anatômicos, seu significado morfológico, a amplitude e a frequência nas várias espécies, nas várias idades e nos dois sexos, fornecendo dados úteis, seja para o diagnóstico da espécie e da variedade, seja para estabelecer sua hierarquia e seu parentesco (1988, p. 113).

Para Arbenz (1988), cabe à antroposcopia que se determinem as características da configuração do corpo humano por exame – e não à antropometria.

Os fundamentos científicos da antropometria estão localizados, em sua maior parte, na Anatomia, cujo início se dá na antiguidade clássica, com estudos realizados por filósofos como Demócrito, Anaxágoras e Empédocles, até chegar-se à figura de Hipócrates, expressão máxima da medicina no mundo clássico.

Outros estudiosos sucederam ao mestre de Cós, ressaltando-se a figura de Herófilo, que obteve autorização dos faraós egípcios para dissecar cadáveres, sendo por isto considerado o verdadeiro fundador da Anatomia.

Existiram outros estudiosos como Marino, Galeno e Guy de Cauliac, até chegar-se à figura de Leonardo da Vinci, que estabeleceu as primeiras medidas científicas do corpo humano, dando início à antropometria.

Dürer e Vesalius, com os trabalhos De systema partium humanorum ( Sobre o sistema das partes humanas) e De humani corporis fabrica ( Sobre a estrutura do corpo humano) deram sequência aos estudos que chamariam a atenção para a importância das medidas corpóreas. Dentre os diversos estudiosos da anatomia deve-se ressaltar a figura de Testut, cujo nome ainda hoje é lembrado nas pesquisas em Antropologia Forense.

Tendo como fundamentos estudos como os anteriormente relatados, cada vez mais pesquisadores têm desenvolvido trabalhos que avançaram na identificação de sexo, da cor, da raça, da idade, da estatura, etc. de tal forma que nos dias de hoje pode-se, com maior segurança, estabelecer diversos parâmetros numéricos utilizados na identificação humana.

O estudo da identificação humana deve obedecer aos parâmetros biológicos da unicidade e da imutabilidade e aos parâmetros técnicos da classificabilidade e da praticabilidade. Fundamentando-se nestes conceitos, a pesquisa médico-legal e odonto-legal, além de estudar características como sexo, cor, idade estatura etc., tem buscado na anatomia comparada elementos que orientam na identificação, em situações como a do encontro de ossadas não especificadas.

A odontologia legal trouxe enorme contribuição à Antropologia Forense. Arbenz (1988) refere-se a estudos realizados por Izard, Boule, Korkhaus, Tamazaki, Hunter, Hemley, Hrdlicka, entre outros, que trabalharam com as dimensões, as curvas, os ângulos, os índices, as relações maxilo-mandibulares, as formas das arcadas dentárias e que puderam contribuir nos estudos filogenéticos, paleontológicos, paleontropológicos e antropométricos da espécie humana.

Vale ressaltar os estudos de Aristóteles, citado por alguns pesquisadores como o fundador da Anatomia Comparada, de Erasístrato de Quios, denominado “pai da fisiologia” que na antiguidade clássica formaram conceitos que deram substrato a essa ciência. Relevantes também foram os estudos de Harvey, Hunter, Havers, Roentgen, Cooper, His, Roux, etc., que permitiram conhecer melhor o corpo humano, contribuindo decisivamente para o atual estágio de evolução da Antropologia Forense.

Atualmente, os meios de comunicações têm realizado diversas incursões na seara da ciência forense, onde conhecimentos anteriormente restritos ao meio científico tornaram-se de domínio público. A partir de acontecimentos políticos rumorosos, de crimes envolvendo pessoas conhecidas, surgiu a necessidade de se fundamentar tecnicamente as sentenças judiciais, assim como aumentar conhecimentos na área da Medicina e da Odontologia Legal, a partir da produção de um número cada vez maior de trabalhos e de pesquisas nos diversos ramos da Antropologia Forense.

Warren e Maples (1997), do Departamento de Antropologia da Universidade da Florida, em Gainesville, USA, no laboratório de identificação e medidas humanas, estudaram variáveis que poderiam influir nas medidas e nos pesos de cremados. Foram realizadas mensurações para determinar a robustez esquelética, o peso, a estatura, o sexo e a idade em cem cadáveres. O estudo foi conduzido de modo que fosse possível calcular o peso dos cremados em relação ao sexo, estendendo-se o cálculo também para a mesma verificação na criança e no feto. Ainda foram calculadas fórmulas de regressão para cada uma das variáveis.

 

1.4. OBJETIVO DO ESTUDO

Na prática pericial em Medicina Legal e Odontologia Legal, nos casos de identificação de esqueletos, ossos isolados, corpos de pessoas desconhecidas ou ainda nas mais diversas situações periciais, emergem como essenciais os pressupostos da Antropologia Forense. Entretanto, no domínio da Antropologia Forense brasileira, carece-se de elementos relativos à estatura humana, já que não existem dados nacionais.

As tabelas e as fórmulas de regressão até hoje utilizadas são de origem europeia e norte-americana, isto é, a partir de medidas do homem europeu e norte-americano. Sabe-se que o brasileiro tem características próprias, devido ao perfil nutricional e à miscigenação racial. Logo, a possibilidade de falhas quando da perícia antropológica poderia ser menor se existissem tabelas e modelos de regressão ajustadas a partir de medidas obtidas da população brasileira. Entretanto, as falhas têm sido minimizadas devido à estratégia utilizada de se calcular uma média entre as diversas metodologias conhecidas: as tabelas de Etienne-Rollet, Trotter e Gleser, Dupertuis e Hadden, as fórmulas de regressão de Pierson, de Trotter e Gleser, de Dupertuis e Hadden, de Krogman e Iscan, entre outras, conforme a experiência de cada perito com estes métodos.

Acredita-se que a estimativa da estatura é dado fundamental na Antropologia Forense pois ela contribui para a identificação humana, especialmente quando diante do esqueleto ou de parte dele (ossos humanos). A presente pesquisa, partindo-se da premissa de que a estatura é dado fundamental na Antropologia Forense, propõe-se a levantar dados que permitam estabelecer parâmetros nacionais, que permitam a obtenção de estimativas da estatura, contribuindo para solução de diversos problemas na área da Criminalística, da Medicina e da Odontologia Legal.

 

1.5. REFERENCIAL TÉCNICO-TEÓRICO

O presente estudo toma como base a Anatomia e, dentro dela, mais especificamente a Osteologia, com destaque para os ossos úmero, rádio, fêmur e tíbia medidos em sua posição anatômica, comparando-os com os valores das tabelas e das fórmulas de regressão habitualmente utilizadas na prática pericial.

Segundo Gardner (1988), ossos longos são aqueles onde o comprimento excede a largura e a espessura e assim incluem-se os ossos que são objetos desta pesquisa: o úmero, o rádio, o fêmur e a tíbia. Para os que trabalham na medicina e na odontologia, a anatomia é básica e nela que se encontra o referencial técnico que balizará esta pesquisa.

A partir de um enfoque anatômico, os ossos longos (úmero, rádio, fêmur e tíbia) são compostos por um corpo chamado diáfise e duas extremidades que, em geral, têm atividade articular e são chamadas de epífises. Quando se tem o osso em crescimento, encontram-se estas epífises com estrutura cartilaginosa. A epífise geralmente é a parte mais larga destes ossos. Próximo à cartilagem articular, situa-se o chamado disco epifisial e, adjacente a este disco, tem-se a zona de crescimento ósseo (metáfise) e osso recém-formado. O osso longo tem uma estrutura compacta constituída por camadas.

De acordo com Gardner (1988), a parte externa e compacta do osso longo é seguida internamente pelo que se chama de cavidade medular. Esta cavidade contém medula óssea rubra ou medula óssea fiava, ou mesmo uma combinação de ambas. A epífise e a metáfise consistiriam em anastomoses irregulares das traves ou trabéculas, que formam o osso esponjoso ou reticular. O espaço entre as trabéculas seria preenchido por medula óssea. As porções externas da epífise e da metáfise são constituídas por uma camada de osso compacto. O osso sobre a superfície articular das extremidades é recoberto por cartilagem comumente denominada hialina. A diáfise ou corpo do osso longo é revestida por uma lâmina de tecido conjuntivo denominado periósteo, que é constituído externamente por uma camada fibrosa e internamente por uma camada celular osteogênica. A superfície interna do osso compacto é formada por uma camada delgada celular chamada endósteo. O periósteo é contínuo, com exceção das extremidades na região onde se encontra a cartilagem articular, servindo também para a fixação das inserções musculares e tendíneas.

A maturação do esqueleto humano é um importante referencial, dividida por Gardner (1988) em 5 períodos. O primeiro período refere-se ao período embrionário, compreendendo as primeiras oito semanas pós-ovulatórias do desenvolvimento. A clavícula, mandíbula, maxila, úmero, rádio, ulna, fêmur e tíbia começam a ossificar-se durante as duas últimas semanas deste período.

O segundo período, fetal, começaria depois de oito semanas pós-ovulatórias, quando o comprimento vértice-nádegas atinge cerca de 30 mm. Os elementos que começam a ossificar cedo ou, às vezes, mais tarde, no período embrionário são: escápula, ílio, fibula, falanges distais das mãos e certos ossos do crãnio, por exemplo, o frontal. A ossificação dos ossos do crãnio, das diáfises, o calcâneo, o ísquio, a púbis e alguns segmentos do esterno e centros vertebrais ocorrem na primeira metade da vida intra-uterina.

A ossificação final do calcâneo, do talus, do cubóide, a extremidade distai do fêmur, a extremidade proximal da tíbia, a cabeça do úmero e raramente a cabeça do fêmur e o cuneiforme lateral ocorrem pouco tempo antes do nascimento.

O período da infância começa a partir do nascimento e se prolonga até a puberdade. Neste período, a maioria das epífises ósseas dos membros e os ossos do carpo, do tarso e os sesamóides começam a ossificar. O quarto período, o da adolescência, inclui a puberdade e estende-se até a maioridade. Nele, a maior parte dos centros secundários das vértebras, costelas, clavícula, escápula e o quadril se ossificam. A fusão entre os centros epifisiais e as diáfises ocorrem entre a segunda e a terceira décadas.

No quinto e último período, o da maioridade, segundo Gardner, o úmero serve de referencial, isto é, como índice esquelético das transições para a adolescência e a vida adulta A sua epífise dista! é a primeira entre os ossos longos que se unem, enquanto sua epífise proximal ossifica-se por último. As suturas da calvária começam a fechar-se em tomo dos 22 anos de idade, a junção esfenoccipital entre os 20 e 21 anos de idade.

 

2. REVISÃO DA LITERATURA

Foram feitas pesquisas bibliográficas que mostram breves relatos a respeito dos estudos, das pesquisas e dos métodos que fundamentam a determinação da estatura na Antropologia Forense. São ideias extraídas dos principais trabalhos pesquisados na literatura nacional e internacional, desde 1755.

 

2.1. ESTUDOS PESQUISADOS

A estatura constitui-se em um problema bastante antigo, que pode ser evidenciado a partir de trabalhos como o de SUE (1755), que relacionou o comprimento dos ossos longos e a estatura obtida em quatorze cadáveres de diversas idades.

A estatura também foi objeto de estudo de ORFILA (1821-1823), que mediu dez esqueletos e cinquenta e um cadáveres de pessoas encontradas mortas em Paris, não reclamadas por seus familiares. O autor observou que para um mesmo osso e um mesmo comprimento não correspondia a mesma estatura, havendo oscilações de 10 a 14 centímetros. Em seguida, medindo um número maior de esqueletos, determinou um valor médio que poderia ser utilizado como elemento de avaliação para a estatura, a partir de qualquer osso longo.

TOPINARD (1888) tomou como base o trabalho de Orfila e outras medidas tomadas em 141 esqueletos, idealizou uma nova forma de averiguar a estatura, utilizando-se de métodos matemáticos. O autor medindo o comprimento dos ossos longos, chegou a uma fórmula para estabelecer a estatura humana, tendo como referencial as porcentagens em que, cada osso longo contribuiria para tal fim.

Úmero= 20%

Rádio= 14,3%

Fêmur= 27,3%

Tíbia= 22, I%

A fórmula seria então a seguinte: RJI 00 =L/X

ROLLET (1888), utilizando-se da mesma técnica de Orfila e medidas de cadáveres (50 homens e 50 mulheres) de várias idades, elaborou tabelas mais precisas.

MANOUVRIER (1892-1893) procurou melhorar as tabelas de Rollet, retirando das amostras pesquisadas pessoas cuja idade ultrapassavam os 60 anos. Segundo o autor, existia uma margem de erro de 40 mm para homens e de 55 mm para mulheres.

PEARSON (1899) ajustou um modelo de regressão, aplicando cálculos matemáticos na determinação da estatura com base nos ossos do lado direito.

CARREA (1920) verificou relações entre a mandíbula e os dentes anteriores, tendo como princípio a simetria corpórea, isto é, como se pontos de um lado fossem equidistantes do outro. O autor elaborou fórmulas para estimar alturas mínima e máxima a partir da corda e do arco formado pelos incisivos central e lateral e canino da mandíbula de um mesmo lado. A estatura mínima seria estabelecida pela metade do produto da corda multiplicada por 6 e por n (3,1416 … ). A estatura máxima seria a metade do produto do arco multiplicado por 6 e por n (3,1416… ). A corda e o arco seriam expressos em milímetros e a estatura em centímetros. CARREA acreditava que a mandíbula seria o osso ideal para basearmos a curva dental e a estatura humana.

SOUZA LIMA (1938), ao relatar experiências de SUE, ORFILA E ROLLET, sugeriu a possibilidade de se estabelecer precisamente a estatura com base em medidas de ossos longos, especialmente a partir da mão, do úmero e do fêmur. Com estes elementos ósseos, seria possível estabelecer a altura total do corpo. O autor também se refere às recomendações de VIBERT, que preconizava a determinação de várias medidas dos ossos, comparando-as com diferentes tabelas, estabelecendo uma média das diversas estaturas encontradas. O autor também recomenda que em cadáveres com partes moles presentes, a exemplo de ORFILA, haja um desconto nas medidas por conta dos espaços existentes nas articulações e da espessura dos tecidos no ápice do crânio e na planta dos pés. SOUZA LIMA fundiu as tabelas para homens e mulheres, elaborado por ETIENNE ROLLET, em uma única, passando a utilizá-las em suas perícias.

TELKKÃ (1950) trabalhou o problema da estatura em Antropologia Forense, estudando esqueletos de 115 homens e 39 mulheres, criando tabelas comparativas e também elaborou fórmula de regressão partindo das medidas de ossos longos.

TROTTER e GLESER (1951, 1952, 1958, 1970, 1977) estudaram esqueletos de pessoas cujas estaturas eram conhecidas em vida e estabeleceram relações com os ossos longos, criando tabelas para brancos e negros, dividindo-os por sexo. Os mesmos autores, posteriormente, elaboraram modelos de regressão para determinar a estatura em função do comprimento dos ossos longos.

DUPERTUIS e HADDEN (1951), utilizando-se de medidas de ossos longos, estabeleceu um modelo de regressão com o objetivo de se determinar a estatura, medindo-se um só osso ou vários ossos.

ROJAS (1958), ao comentar as tabelas existentes, sugeriu que melhor seria a de ROLLET, resultante das pesquisas de Lacasagne e Martin. Examinando-se ossos secos, às suas medidas deveriam ser acrescidos 2 milímetros e na tabela relativa ao item estatura, seriam reduzidos 2 centímetros, pois as medidas teriam sido realizadas com os cadáveres deitados. Ao comentar o método preconizado por Orfila, refere-se à sua maior amplitude, pois a estatura estaria relacionada com o tronco, o que seria bastante útil nos casos de esquartejamentos. Quando existissem muitos ossos, o ideal seria uma média das medidas e o perito deveria usar uma terminologia condicional e não afirmativa na perícia da estatura. O autor também se refere aos autores ingleses que não gostam das tabelas, por considerá-las inseguras. Aceitariam a regra de Taylor, segundo a qual a estatura seria mais ou menos a envergadura e esta igual a mais ou menos o comprimento do braço multiplicado por 2, mais 6 polegadas por cada clavícula e uma média pela largura do esterno. Particularmente, comentou que teria obtido bons resultados com as tabelas em suas perícias.

OLIVIER e PINEAU (1958) apud COMA (1991), estudaram uma tabela de relações entre os meses lunares, estatura fetal total e a distância VERTIX-ISQUIO, ressaltando que para uma mesma idade fetal havia fetos menores e maiores.

LELONG e JOSEPH (1957) apud COMA (1991) elaboraram tabelas para os sexos feminino e masculino durante o período de crescimento.

PRADO (1972) resumiu estudos clássicos da Antropologia Forense, especialmente em relação à estatura. Citando os princípios artísticos e antropológicos e os processos de mensuração elaborados por LACASSAGNE, MARTIN e BROCA, o autor mostra-se preocupado com questões genéticas como o gigantismo infantil e o acromegálico.

FÁVERO (1975), referindo-se à perícia da estatura, diz que: ” a estatura é tomada medindo-se o indivíduo de pé, sem o calçado e em posição perfeitamente vertical, ou deitado num plano horizontal e entre dois planos verticais. É o que se faz com as crianças ou com os cadáveres”(p. 102). Para o autor, ao tratar com partes separadas do corpo ou de ossos, a estatura pode ser calculada com certa aproximação. Preconizou o uso dos cânones artísticos e antropológicos. De acordo com o princípio de VITRÚVIO, a estatura corresponde a 8 vezes o comprimento da mão, 7 vezes o comprimento do pé, 4 vezes o comprimento do antebraço e mão e 10 vezes o comprimento da face. Dentre os vários princípios antropológicos, o autor refere-se à de METELET, onde se encontram as seguintes proporções:

Estatura – 1000

Altura da cabeça – 130

Pescoço (mento-clavícula) – 37

Tronco (fúrcula, esterno-períneo) – 239

Tronco (clavícula-pube) – 306

Membro superior (acrômio-extremidade do médio) – 455

Membro inferior (do pube ao solo) – 513

Membroinferior (do períneo ao solo) – 482

Mão – 109

Pé – 149

No entanto, quando se tem ossos isolados, FÁVERO indica como parâmetro para mensuração da estatura, a tábua osteométrica de BROCA. Além disso, o autor refere-se aos trabalhos de LACASSAGNE e MARTIN, onde se estabeleceu que, para obtenção da estatura do indivíduo, é necessário multiplicar-se o comprimento de cada um dos ossos longos por índices pré-determinados.

PATARO (1976) tratou do problema da identificação de esqueletos e de restos humanos, referindo-se às dificuldades atinentes a este tipo de perícia. O autor também se referiu à relação dos ossos longos com a estatura humana.

VASCONCELOS (1976), ao referir-se às medidas corporais no vivo, relatou que a estatura depende da raça, da idade, do sexo e do desenvolvimento do indivíduo, havendo uma relação constante entre estatura e idade. O autor também relata estudos desenvolvidos por TOLDT, ROLLET e MANOUVRIER. Ao tratar de ossos isolados, o autor cita as tabelas antropométricas de CORRADO, BROCA, MANOUVRIER e ORFILA, assim como os princípios artísticos de VITRUVIO.

Para ALMEIDA Jr. e COSTA Jr. (1978), a estatura dos indivíduos vivos pode ser obtida através de um esquadro de madeira aplicado a uma haste graduada, fixada previamente na parede ou ainda com o emprego do antropômetro, com o paciente descalço ao lado da haste. Para BERTILLON, apud os autores acima citados, a operação seria tanto mais exata quanto mais rápida. Os autores também se referem aos estudos de V ALLOIS (1948) e MORANT (1950), que relataram diferenças na estatura, ao medir-se o indivíduo durante o dia. A estatura de uma pessoa seria maior pela manhã, diminuindo à tarde, devido ao peso do corpo e consequente achatamento vertebral. Em relação ao cadáver, ele teria uma estatura maior do que quando vivo, devido ao relaxamento post-mortem. No entanto, em verificações mais atuais, não se teriam constatado tais diferenças. Quando se encontram ossos humanos e se pretende determinar a estatura, o chamado processo anatômico seria exequível se o esqueleto estivesse mais ou menos completo ou por inteiro. No entanto, quando o perito tiver um esqueleto incompleto ou ossos isolados, deveria usar os métodos matemáticos, pois estes produziriam um resultado melhor. De acordo os autores, as tabelas de DUPERTUIS e 27 HADDEN seriam as melhores, reforçando afirmação feita em 1953, por BOYD e TREVISOR, professores de anatomia e antropologia da Universidade de Cambridge, da Inglaterra.

ARBENZ (1988), ao tratar do tema crescimento, desenvolvimento, morfogênese e incremento de massa corpórea, relata que podem ser resumidos pelas leis de VIOLA, BESNARD e de GODIN. O autor preconiza as técnicas de BALTHAZARD e DERVIEUX, além das técnicas de OLIVIER e PINAUD na obtenção da estimativa de comprimento fetal. O autor também se refere à estimativa da estatura no esqueleto e nos ossos isolados, com base em diferentes técnicas. Quando existir um esqueleto completo, seria utilizado o método anatômico, que consiste em colocar os ossos em suas posições, deixando espaços correspondentes às cartilagens hialinas e intervertebrais medindo-se, em seguida, com regra graduada ou por qualquer outro meio, acrescentando valores que corresponderiam às partes moles do couro cabeludo e da planta dos pés. Métodos especiais, como as tabelas de ÉTIENNE-ROLLET devem ser utilizados em caso de ossos isolados.

ARBENZ (1988) chamou a atenção para estudos de LOPEZ GÓMEZ, ao referir-se ao fato do comprimento do esqueleto ser menor do que a estatura do indivíduo vivo, devido ao couro cabeludo, discos intervertebrais, cartilagens e solas dos pés e, nesse caso, a diferença seria de aproximadamente de 4 a 6 centímetros. O autor também descreveu as técnicas de LACASSAGNE e MARTIN, a tábua osteométrica de BROCA com sua adaptação, assim como suas considerações a respeito das equações de PEARSON. Além disso, considera o método preconizado por BOYD e TREVISOR como mais eficaz para a estimativa da estatura. O autor refere-se ao método de CARREA, considerando-o relevante na estimativa da estatura.

De acordo com COMA (1991), uma das informações mais solicitadas pelos juízes aos médicos legistas, nos ofícios que acompanham restos humanos, é a determinação da estatura. Sob esse aspecto, o autor aponta para as seguintes situações:

  • Estatura fetal, podendo o feto estar inteiro, recoberto por partes moles, em putrefação, em estado de adipocera, mumificado, ou totalmente esqueletizado;
  • Estatura de adulto, podendo estar da mesma forma, com o corpo inteiro, em avançado estado de putrefação, mumificado, semi-mumificado, saponificado ou esqueletizado;
  • Pode tratar-se ainda de ossos limpos isolados, ou membros em estado de putrefação, porém em todo caso, somente uma parte do esqueleto;
  • Pode tratar-se somente de fragmentos ósseos.

Ao mesmo tempo em que relatou as situações acima, COMA descreveu a situação na Espanha, cuja legislação não permitiu que o autor pudesse utilizar cadáveres em pesquisas, o que, na sua opinião, representa um atraso na evolução da ciência forense na Espanha.

COMA (1991) trabalhou com a hipótese do que poderia ocorrer, quando nos casos de esquartejamentos criminais, nos casos de grandes catástrofes ou de grandes acidentes, se só se dispuser do tronco do indivíduo: neste caso, estariam disponíveis as 7 vértebras cervicais, 12 dorsais, 5 lombares e 5 sacras. Seriam obtidas as medidas da segunda cervical até a base da quinta lombar (KROGMAN, 1939). O comprimento dos corpos vertebrais seria multiplicado pelo coeficiente correspondente, segundo o sexo. O autor refere-se ao trabalho de TIBBETS (1981), que utilizava equações de regressão ajustadas a partir de medidas de 100 esqueletos de homens e 100 de mulheres, negros da coleção Terry. O autor cita os trabalhos de PEARSON 29 (1898) e de DWIGHT (1894) que estudaram colunas de 56 homens e 21 mulheres, cujas medidas iniciavam-se no atlas e prosseguiam até o promontório sacro. COMA também faz referência aos ensaios de FULL Y e PINEAU (1960) que, aplicando as mesmas técnicas de Dwight, mediu a altura de cada vértebra em 164 esqueletos de homens com idade entre 18 e 65 anos e estatura variando entre 151 e 188m de altura. Foram desenvolvidas equações de regressão agrupando as vértebras em cinco setores: as três primeiras dorsais, as V, VI e VII dorsais, as três últimas dorsais, as V,VI, VII dorsais e as I, 11, Ill lombares e as três últimas dorsais e as três primeiras lombares.

RODRIGUEZ CUENCA (1994), após discutir a importância social e política da Antropologia Forense, especialmente na América Latina, onde existem desaparecidos políticos e são feridos os direitos humanos, procurou mostrar que com o uso dos métodos e do conhecimento da Antropologia Forense pode-se auxiliar na identificação de desconhecidos. Dentre os diversos métodos, o autor refere-se ao método anatômico, baseado nas prescrições de FULLY (1956), onde se estabelece a estatura a partir das medidas da altura basio-bregmática, da altura máxima da linha média dos corpos vertebrais entre a segunda vértebra cervical e a segunda lombar, da altura anterior da primeira vértebra sacra obtida na sua linha média, da longitude bi-condiliana (fisiológica) do fêmur, da longitude da tíbia sem a eminência intercondilar e da altura do tornozelo e calcâneo articulados, utilizando-se, para isso, a tábua osteométrica de Broca.

A estimativa da estatura seria realizada partindo-se dos estudos de HRDLICKA (1939), TROTTER e GLESER (1951,1952, 1958, 1971), DUPERTUIS e HADDEN (1951) e ainda KROGMAN e ISCAN (1986), que estabeleceram modelos de regressão para brancos e negros americanos a partir das coleções ósseas de Terry, Hamman – Todd e de soldados 30 americanos mortos na guerra da Coréia. O autor também se refere às investigações de Formicola, em 1993, na Itália, e de S. Genovés, em 1967, que estudaram populações brancas, negras e dos indígenas centro-americanos. Estes estudos apontam as diferenças raciais como muito importantes no estabelecimento da estatura a partir dos ossos.

Segundo RODRIGUEZ CUENCA (1994), para estimar a estatura a partir de fragmentos ósseos, deve-se seguir a metodologia estabelecida por Steele e Mckem, em 1969, que melhoraram o método de Müller, baseados na contribuição percentual de cada segmento ósseo na composição da totalidade do osso. Para trabalhar perícias em esqueletos imaturos, o autor utiliza-se dos métodos de Balthazar e Dervieux, em 1921, Fazekas e Kósa, em 1966 e ainda de Olivier e Pineau, em 1960, afirmando que se pode estabelecer a idade fetal a partir da estatura, ressaltando a necessidade de se entender que as mudanças corporais na infância podem prejudicar o resultado do exame.

CHOI, CHAE, CHUNG e KANG (1997) mediram 57 cadáveres de coreanos adultos masculinos, em posição supina. Após a dissecção dos corpos, foram medidos os ossos (úmero, rádio, ulna, fêmur, tíbia e fíbula). F oi obtida uma equação de regressão para a estatura em função de medidas de ossos longos. Outros trabalhos evidenciam o interesse e a importância da estatura que foram estimadas em diferentes situações.

JASUJA, HARBHAJAN e ANUPAMA (1997) trabalharam com a estimativa da estatura através do comprimento da passada, quando o indivíduo caminha rápido. Relataram que existem muito poucos trabalhos sobre o referido tema e estabeleceram uma fórmula para determinar a estatura quando se tem registros de distâncias entre os pés em uma caminhada rápida.

VOSS e BAILEY (1997) investigaram a questão da variação diurna da estatura, medindo 53 crianças divididas em dois grupos. Verificaram a existência de um decréscimo da estatura no período da manhã e que as técnicas de alongamento realizadas com as crianças não reduziram o achatamento da estatura constado. No entanto, ao medi-las após o período da manhã, aquela redução da estatura não havia se mantido. Preconizaram que tais apontamentos deveriam ser feitos no período da tarde.

CHIBA e TERAZAWA (1998) estabeleceram um método para estimativa da estatura através das medidas do crânio, estudando 124 cadáveres japoneses (77 masculinos e 47 femininos) necropsiados entre julho de 1986 e junho de 1991. O método consistiu em estabelecer-se o diâmetro (distância entre a glabela e a protuberância externa) e a circunferência (medida em tomo do crânio em dois pontos na glabela e na protuberância externa). A equação de regressão foi calculada e assim obtiveram-se os seguintes resultados: estatura para homens (diâmetro+ circunferência) x 1.35 + 70,6, com estimativa de erro de 6,96 em; estatura nas mulheres = circunferência x 1,28 + 87,8 com margem de erro de 6,59 em; estatura para ambos os sexos (diâmetro + circunferência) x 1,95 + 25,2 com margem de erro de 7.95 em. Segundo os autores, este método pode ser muito útil, quando se tem apenas o crânio para examinar.

FRANÇA (1998) observou que a estatura é obtida no vivo em pé, em perfeita verticalidade. No cadáver, a altura deve ser determinada com uma régua especial, cujas hastes tocam o ponto mais alto da cabeça e na face inferior do calcanhar. Quando se dispõe apenas dos ossos longos, pode-se determinar a estatura com base na tábua osteométrica de Broca, nas tabelas de Etienne-Rollet, de Lacassagne e Martin e ainda de Trotter e Gleser. Para avaliar-se a estatura, basta multiplicar o comprimento do osso longo 32 examinado pelos índices referidos dando uma altura aproximada do indivíduo quando vivo.

PRETTY, HENNEBERG, LAMBERT e PROKOPEC (1998) estudaram 55 esqueletos masculinos e 40 femininos encontrados em escavações realizadas na região de Ronka, próximo ao rio Murray, no sul da Austrália. Utilizando as tabelas e equações de Trotter e Gleser, puderam estabelecer que a estatura média dos homens no período compreendido entre 9800 e 100 anos antes de Cristo, não era muito diferente da estatura média contemporânea. A estatura média do homem estaria entre 1,65m e 1,72m e da mulher entre 1,52 m a 1,56m. Concluíram que entre as populações aborígenes daquela época e a atual não houve incremento da estatura.

FORMICOLA e GIANNECCHINI (1999) avaliaram as tendências da estatura nos períodos paleolítico alto e mesolítico, na Europa. Foram medidos e avaliados 66 esqueletos (41 masculinos e 25 femininos) do período paleolítico e 289 (171 masculinos e 118 femininos) do período mesolítico. Usaram as técnicas de Fully e as de Formicola e Franceschi para efeito das análises estatísticas dos dados. Constataram que nos períodos pós-glaciais, os indivíduos eram menores que nos períodos pré-glaciais, atribuindo esse decréscimo a uma diminuição da oferta proteica na dieta daquelas populações.

De acordo com MENDONÇA (1999), a estatura das populações atuais sofreu mudança devido a uma maior mobilidade, a intercâmbios genéticos, a uma melhoria geral da alimentação, a progressos médicos e a diferentes fatores ambientais de stress. Assim, estudos e métodos aplicados no passado não refletem e não explicam a realidade atual, nem permitem obter estimativas seguras. O estudo leva em consideração o aumento da estatura da população atual, que influi nas proporcionalidades longitudinais do corpo. As fórmulas e tabelas estabelecidas há muitos anos podem fornecer, quando 33 aplicadas atualmente, resultados não muito seguros. O autor recomenda que, para estabelecer-se a estatura a partir das medidas dos ossos longos, deve-se utilizar um método matemático, ajustando um modelo de regressão, sendo assim, mais confiável. Como os valores expressos nas tabelas são valores médios arredondados, os resultados não serão tão rigorosos. Deve-se medir o úmero no seu comprimento total. O fêmur pode ser medido no seu comprimento fisiológico, oblíquo ou bi-condiliano, ou ainda no seu comprimento perpendicular ou máximo. Segundo o autor, deve-se aplicar modelos de regressão ou as tabelas de consulta para o úmero, quando não se possui o fêmur. Caso contrário, a aplicação do método apenas para o fêmur é suficiente. Ainda de acordo com o autor, não há necessidade de se fazerem correções sistemáticas da estatura em função da idade que seria importante apenas nas grandes alterações ósteo-articulares de natureza traumática ou degenerativa. A partir desses breves relatos, pode-se avaliar a importância da estatura como elemento para a identificação humana.

 

2.2. PESQUISAS E MÉTODOS SOBRE DETERMINAÇÃO DA ESTATURA

A inexistência de profissional específico, ou seJa, do antropólogo forense, até os presentes dias, toma o médico legista e o odontólogo legista executores das perícias em Antropologia Forense, em nosso meio. Toma-se, portanto, óbvio que estes aludidos profissionais devem inteirar-se da metodologia essencial para executar este mister. A presente pesquisa é voltada para este fim. Baseada na experiência e estudos de diversos autores, procurar-se-ão estabelecer os caminhos práticos que o médico legista e o odontólogo legista deverão trilhar para melhor executar as referidas perícias.

Diante de ossos humanos enviados para exame, deve-se estabelecer um roteiro para que a perícia tenha o seu desideratum. A reconstrução da estatura deve levar em conta referências que antecedem o estabelecimento deste dado. Deve-se estabelecer inicialmente o sexo, a idade e, se possível, a raça, para em seguida estudarmos a estatura. A estatura pode variar com o sexo, a raça, a idade e com o biótipo. Por isso os cuidados na execução desta perícia, pois informes pouco consistentes podem levar a erros grosseiros.

A estatura é dado essencial unicamente para a espécie humana, porque os demais animais não assumem uma posição ereta habitual e fisiológica para deambular. Entre os fatores longitudinais e transversais do crescimento humano, predominam os primeiros. Os valores de correspondência, expressos através de coeficientes de correlação, entre a estatura e os segmentos longitudinais, é observado significativamente através do comprimento da perna (0,864), a estatura sentado (0,732) e o comprimento do membro superior (0,608).

Assim sendo, segundo Burt e Banks, o cálculo da estatura a partir das dimensões do esqueleto, é estabelecido através dos comprimentos do membro superior, da coluna e do membro inferior (Rodriguez Cuenca 1994).

Segundo Martin e Saller (1957), apud Rodriguez Cuenca (1994), as estaturas classificam-se mediante os seguintes intervalos: 

HOMENS

ANÕES- menor que 130 cm

MUITO BAIXOS- 130- 149,9 cm

BAIXOS- 150- 159,9 cm

SUBMEDIANOS- 160- 163,9 cm

MEDIANOS – 164 – 166.9 cm

SUPERMEDIANO- 167- 169,9cm

ALTOS- 170-179,9 cm

MUITO ALTOS -180-199,9 cm

GIGANTES- 200 cm ou mais

MULHERES

ANÃS -menor que 121 cm

MUITO BAIXAS -121-139,9 cm

BAIXAS – 140- 148,9 cm

SUBMEDIANAS -149-152,9 cm

MEDIANAS – 153- 155,9 cm

SUPERMEDIANAS – 156- 158,9 cm

ALTAS- 159- 167,9 cm

MUITO ALTAS -168- 186,9 cm

GIGANTES – 187 cm ou mais

As variações raciais e de biótipo, numa comunidade, determinam variáveis na estatura, como as que reconheceu Genovés (1967) e Tanner (1986). Estes autores referem que as crianças brancas são mais altas em qualquer faixa etária, os negros têm um crescimento na puberdade mais acelerado, que é compensado a seguir e as crianças das raças amarelas teriam um crescimento menor em qualquer idade. Os mesmos autores ainda notaram que nas populações negras os membros inferiores predominam em comparação ao tronco e que nas raças amarelas o tronco cresce mais rápido que os membros inferiores. Como no nosso meio há intensa miscigenação racial, por certo os nossos padrões diferem daqueles encontrados nas populações com padrões raciais uniformes. Deve-se ainda inferir que a melhora da nutrição, especialmente nas mães no período da gestação, a melhora das condições de higiene, a diminuição das enfermidades, o tipo de vida urbana e outros fatores podem explicar um possível aumento médio da estatura na população brasileira.

2.3. MÉTODO ANATÔMICO PARA DETERMINAÇÃO DA ESTATURA

Segundo Dwight (1894) e Stewart (1979), utiliza-se este método quando se tem o esqueleto inteiro ou a maior parte dos ossos. O procedimento utilizado era assim realizado: em uma mesa, colocava-se o crânio deixando 3mm entre os côndilos e a atlas, acresciam-se 6mm relativos às partes moles do vértice do crânio, colocava-se cada vértebra desde o atlas até o sacro, em seguida se colocava a pélvis, a seguir se articulava o fêmur no acetábulo sem tocar-se o bordo articular, acresciam-se as tíbias, deixando 6mm entre estas e os fêmures, depois se colocava o astrágalo deixando 3 mm de espaço com a tíbia, entre o calcâneo e o astrágalo, se deixava um espaço de 3 mm e finalmente se acrescentava 12 mm por conta das partes moles do pé. Deve-se ter em conta, segundo os autores acima referidos que, se o esqueleto estiver inteiro é necessário levar-se em conta que o esqueleto é sempre menor, de 4 a 6 em, em relação ao indivíduo vivo, devido às partes moles e aos discos intervertebrais.

Existem críticas por parte dos autores em relação às questões relativas à reconstrução da estatura. As técnicas que preconizam tabelas e equações de regressão obtém dados relativos a amostras esqueléticas e não seriam tão assertivas no estabelecimento da estatura real, apud Formicola (1993). Além do que, as tabelas e equações existentes apresentam os dados de populações específicas e ainda foram produzidas há muito tempo, ou seja, no século XIX e no princípio deste século. Assim pensando, Fully (1956) estabeleceu um sistema básico de medidas para a estatura quando se aplica o método anatômico. As referidas medidas seriam as seguintes:

  • Altura básio-bregmática do crânio;
  • Altura máxima da linha média dos corpos vertebrais entre C2 e L5;
  • Altura anterior de S 1 obtida em sua linha média;
  • Comprimento bi-condiliano (posição fisiológica) do fêmur;
  • Comprimento da tíbia sem a eminência inercondiliana;
  • Altura do tornozelo e calcáneo articulados, ou seja, a distância entre a parte superior da tróclea e a face plantar do calcáneo.

Em 1960, Fully e Pineau apresentaram novo trabalho, onde corrigiam o anterior, através de fórmulas, pois o trabalho acima fora elaborado com indivíduos franceses, do sexo masculino. Portanto, procuraram corrigir usando as seguintes fórmulas:

Estatura (cm) = 2,09 (F+Ll-L5) + 42,67 com variação de 2,35

Estatura (cm) = 2,32 (T + Ll-L5) + 48,63 com variação de 2,54

 

2.4. ESTIMATIVA DA ESTATURA ATRAVÉS DE MEDIDAS DOS OSSOS

 Quando se está diante de ossos longos isolados ou de grupos ósseos enviados para exame médico pericial, usa-se até hoje a experiência dos estudiosos e de suas respectivas tabelas e equações de regressão.

Para melhor entendimento das técnicas de medidas, convém apresentar resumidamente as principais técnicas publicadas no mundo ocidental, aqui já mencionadas conceitualmente, quais sejam: Hrdlicka (1939), Trotter e Gleser (1951, 1952, 1958, 1971), Dupertuis e Hadden (1951), Krogman e Iscan (1986). Tais autores elaboraram tabelas e equações de regressão a partir das coleções ósseas de Terry e de Hamman – Todd, e ainda de cadáveres de soldados americanos mortos na guerra da Coréia, com a inclusão de medidas feitas na Europa por Formicola (1993) e finalmente, com os trabalhos de S. Genovés (1967), podem-se realizar medições que se aproximam da realidade do corpo em vida.

Foi notado pelos autores referidos que os dados relativos à raça branca são mais estáveis em relação ao corpo em vida. No entanto, existe ampla gama de variações quando se comparam os dados sob o ponto de vista da mescla de raças.

Os estudos de Trotter e Gleser (1971) demostraram que as populações de mexicanos e de porto-riquenhos têm estatura melhor comparada com as fórmulas aplicadas aos da raça negra que os da raça branca. Se se compararem os dados da coleção de Harnman – Todd, nota-se que os dados de estatura relativos à raça branca seriam 8,5 em mais altos que os brancos dos estudos realizados por Pearson (1898).

Estes autores sugerem então que para evitar riscos, deve-se reconstruir a estatura através de medidas de vários ossos especialmente dos ossos fêmur e tíbia que interferem mais na determinação da estatura que os demais ossos longos.

Os estudos de K.rogman e Iscan (1986) e de Genovés (1964) demonstraram que o fêmur é mais importante quando se estudam as raças branca e amarela, a tíbia é mais importante quando se estuda a raça negra. As margens de erros na medição da estatura também foram analisadas, assim, Pearson relatava que a possibilidade de erro era de, no mínimo, 2,0cm, podendo chegar a 2,66 em.

Dentre os autores acima referidos, Rodriguez Cuenca (1994) prefere os trabalhos de Trotter e Gleser devido ao maior número de elementos estudados. Estes autores estabeleceram uma margem de erro de 2,5 em e ainda se referiram aos estudos de Vallois (1965), que se referiu às diferenças entre as medidas do corpo pela manhã e à tarde, devido ao achatamento intervertebral devido à perda da tonicidade dos discos vertebrais.

 Fórmulas de Krogman e Iscan (1986)

Homens brancos

3,08 (úmero) + 70,45 variação de 4,05

3,78 (rádio)+ 79,01 variação de 4,32

3,70 ( ulna) + 74,05 variação de 4,32

2,38 (fêmur)+ 61,41 variação de 2,47

2,52 (tíbia)+ 78,62 variação de 2,90

2,68 (fibula) + 71,78 variação de 3,29

1,30 ( fêmur+ tíbia ) + 63,29 variação de 2,99 

Mulheres brancas

3,36 (úmero) + 57,97 variação de 4,45

4,74 (rádio)+ 54,93 variação de 4,24

4,27 (ulna) + 57,76 variação de 4,30

2,47 (fêmur)+ 54,10 variação de 3,72

2,90 (tíbia)+ 61,53 variação de 3,66

2,93 ( fibula) + 59,61 variação de 3,57

1,39 (fêmur+ tíbia)+ 53,20 variação de 3,55 

Homens negros

3,26 ( úmero) + 62,10 variação de 4,43

3,42 (rádio)+ 81,56 variação de 4,30

3,26 (ulna) + 79,29 variação de 4,42

2,11 (fêmur)+ 70,35 variação de 2,28

2,19 (tíbia)+ 86,02 variação de 2,45

2,19 (fibula) + 85,65 variação de 4,08

1,15 (fêmur+ tíbia) + 71,04 variação de 3,53

Mulheres negras

3,08 (úmero) +64,67 variação de 4,25

3,67 (rádio)+ 71.79 variação de 4,59

3,31 (ulna) + 75,38 variação de 4,83

2,28 (fêmur)+ 59,76 variação de 3,41

2,45 (tíbia)+ 72,65 variação de 3,70

2,49 (fibula) + 70,90 variação de 3,80

1,26 (fêmur+ tíbia) + 59,72 variação de 3,28 

Homens amarelos

2,68 (úmero) + 83,19 variação de 4,25

3,54 (rádio)+ 82,00 variação de 4,60

3,48 (ulna) + 77,45 variação de 4,66

2,15 (fêmur)+ 72,57 variação de 3,80

2,39 (tíbia)+ 81,45 variação de 3,27

2,40 (fibula) + 80,56 variação de 3,24

1,22 (fêmur+ tíbia)+ 70,37 variação de 3,24 

Homens mexicanos

2,92 ( úmero) + 73,94 variação de 4,24

3,55 (rádio)+ 80,71 variação de 4,04

3,56 (ulna) + 74,56 variação de 4,05

2,40 (remur) + 58,67 variação de 2,99

2,34 (tíbia)+ 80,07 variação de 3,73

2,50 (fibula) + 75,44 variação de 3,52

 

Fórmula de GENOVÉS (1967) para indígenas americanos

Homens

2,26 (fêmur) + 66,38 variação de 3,42

1,96 (tíbia)+ 93,75 variação de 2,81

Mulheres

2,59 (fêmur)+ 49,74 variação de 3,82

2,72 (tíbia) + 63,78 variação de 3,51

 

2.5. ESTIMATIVA DA ESTATURA ATRAVÉS DE OSSOS FRAGMENTADOS

Quando se tem pela frente fragmentos de ossos devido à ação do tempo, aos predadores, ou à exposição ao ar, ou aqueles enterrados em solos ácidos, chegam às mãos dos peritos fragmentos dos respectivos ossos. Nesta situação, usam-se atualmente os critérios estabelecidos por Steele e Mckem (1969), 41 que estudaram 117 esqueletos, criando pontos de referência para o fêmur e a tíbia, a seguir descritos:

FÊMUR

Este osso é dividido nos seguintes segmentos:

  • ponto mais proximal da cabeça do fêmur;
  • ponto médio no trocanter menor;
  • a extensão mais proximal da superfície poplítea no local onde as linhas supracondilianas mediai e lateral se separam paralelamente;
  • ponto mais proximal da fossa intercondiliana;
  • ponto mais distai do cóndilo mediai.

De acordo com estes segmentos, os autores dividiram o fêmur nos seguintes setores: F1, F2, F3, F4,F5 – e criaram equações de regressão para reconstruir a estatura através de fragmentos do fêmur.

TÍBIA

Este osso foi dividido nos seguintes segmentos:

  • Ponto mais proximal da eminência intercondiliana;
  • Ponto mais proximal da tuberosidade tíbia!;
  • Local de confluência das linhas que vão até o bordo inferior da tuberosidade;
  • Local onde a crista anterior da tíbia cruza com o bordo mediai acima do maléolo medial
  • Bordo proximal da face articular inferior;
  • Ponto mais distai sobre o maléolo mediai.

Com estes dados, os autores obtiveram os seguintes setores: TI, T2, T3, T4, T5 – e elaboram equações de regressão para determinar a estatura a partir da tíbia.

 

Fórmulas de regressão a partir de fragmentos de tíbia:

Homens brancos

3,52(T2) + 2,89 (T3) + 2,23 (T4) + 74,55 variação de 4,56

2,87 (T3) + 2,96(T4)- 0,96 (T5) + 92,36 variação de 5,45

4,19 (Tl) + 3,63 (T2) + 2,69 (T3) 2,10 (T4) + 64,95 variação de 4,22

3,54 (T2) + 2,96 (T3) + 2,18 (T4) – 1,56 (T5) + 75,98 variação de 4,60

Homens negros

2,26 (T2) +2,22 (T3)+ 3,17 (T4) + 5,86 variação de 3,88

2,23 (T3)+3,51 (t4)-0,51 (T5) +91,70 variação de 4,49

1,79 (Tl) + 2,18 (T2) + 2,25 (T3) + 3,10 (T4) + 75,87 variação de 3,88

2,32 (T2) + 2,23 T3) + 3,19 (T4)- 1,60 (T5) + 82,50 variação de 3,92 

Mulheres brancas

4,17(T2) + 2,96 (T3) + 2,16 (T4) + 66,09 variação de 4,69

2,75 (T3) + 3,65 (T4) + 1,17 (T5) + 79,92 variação de 5,69

1,51(Tl) + 4,03 (T2) + 2,97 (T3) + 2,12 (T4) + 62,89 variação de 4,71

4,31 (T2) + 3,05 (T3) + 2,20 (T4)- 2,34 (T5) + 66,60 variação de 4,72 

Mulheres negras

2,56 (T2) + 2,21 (T3) + 1,56 (T4) + 66,09 variação de 4,59

2,11 (T3) + 3,65 (T4) + 1,17 (T5) + 79,92 variação de 5,04

3,60 (Tl) + 2,15 (T2) + 2,26 (T3) + 1,84 (T4) + 62,89 variação de 4,46

2,58 (T2) + 2,17 (T3)- 1,63 (T4) + 3,80 (T5) + 86,64 variação de 4,59

Em 1935, Müller apud Coma (1991), criou um método para se definir a estatura a partir de fragmentos de ossos longos, estudando, para isso, material arqueológico, constituído por 100 úmeros, 50 rádios e 100 tíbias.

 

Determinação da estatura fetal

Segundo Olivier e Pineau (1960), o estabelecimento da estatura fetal é dificultado devido à ausência das epífises ósseas e ainda pela dificuldade de medirmos o osso em sua totalidade. Os referidos autores propuseram equações de regressão a partir do comprimento das diáfises ósseas, apresentando as seguintes fórmulas: 

Formula de OLIVIER e PINEAU para estatura fetal

7,92 U + 0,32 + K 1,8 cm

13,8 R+ 2,85 + K 1,82 cm

8,73 Ul + 1,07 + K 1,59 cm

6,29 F+ 4,42 + K 1,82cm

7,85 Fib + 2,78 + K 1,65 cm

7,39 T + 3,55 + K 1,92 cm

 

Balthazard e Dervieux (1921) sugenram que a idade do feto se poderia calcular a partir da estatura, através da seguinte fórmula:

Idade= 5,6 x estatura fetal

Coma (1991) relata os trabalhos de Quetelet, que elaborou tabelas para determinar a estatura e o peso para ambos os sexos, até os treze e os dezoito anos – e para a evolução da criança até o primeiro ano de vida.

 

3. METODOLOGIA

 Como referente metodológico inicialmente se fez uma comparação entre o número de elementos ósseos medidos e sua relação com a estatura pelos estudiosos anteriores à presente pesquisa. Em seguida, indicou-se as medidas e instrumentos utilizados, bem como as informações sobre como, quando, onde foram aplicados os instrumentos de medida. Somente então, os dados foram analisados e observadas as inferências e as limitações do método.

De acordo com Coma (1991), Sue obteve medidas de 14 cadáveres, em Paris, no século XVIII; Orfila mediu 1 O esqueletos e 50 cadáveres, no século XIX. Ainda no século XIX, Topinard mediu 141 esqueletos; Rollet mediu 50 cadáveres de cada sexo. Segundo Almeida Júnior e Costa Júnior (1978), em 1915, Dupertuis e Hadden mediram 100 cadáveres de cada sexo e de cada cor. Segundo Coma (1991), Telkkã mediu 115 esqueletos masculinos e 39 femininos, em 1950. Trotter e Gleser usaram para suas pesquisas os esqueletos da coleção Terry e os esqueletos de soldados mortos na Segunda Guerra Mundial e na guerra da Coreia. Tibets (1981) mediu 100 esqueletos de cada sexo, da raça negra da coleção Terry. Pearson (1898) e Dwight (1894) mediram 56 colunas masculinas e 21 femininas. Fully e Pineau (1960) mediram 164 esqueletos masculinos. Choi, Chae, Chung e Kang (1997) mediram 57 cadáveres masculinos. Chiba e Terazawa (1998) mediram 77 cadáveres masculinos e 47 femininos. Pretty, Henneberg, Lambert e Prokopec (1998) mediram 55 esqueletos masculinos e 40 femininos. Para o desenvolvimento deste trabalho, o pesquisador responsável pelo presente estudo, atuando como médico legista no Posto Médico-Legal de 46 Bragança Paulista, coletou dados relativos a 216 cadáveres (116 masculinos e 100 cadáveres femininos) durante as necropsias realizadas.

 

3.1. INSTRUMENTOS DE MEDIDAS

 As medidas de corpos enviados para necrópsia foram coletadas como são feitas rotineiramente, nos exames necroscópicos, como parte constituinte do laudo pericial, obedecendo ao seguinte protocolo, utilizado como instrumento da pesquisa:

  1. medição da estatura, na mesa de necrópsia à qual está acoplada uma régua antropométrica;
  2. medição da distância fúrcula-estemal períneo;
  3. medição da distância períneo-parte inferior do calcâneo;
  4. medição do comprimento do membro superior;
  5. medição do comprimento do membro inferior.

Além deste protocolo, foram também utilizados como instrumentos de pesquisa, um paquímetro, modificado pelo autor especialmente para a pesquisa e uma régua antropométrica acoplada à mesa de necrópsia. Como elemento de confirmação da estatura, ainda foi utilizada uma trena com dois metros de extensão.

 

3.2. COLETA DE DADOS 

Além dessas medições estabelecidas no protocolo acima descrito, foram realizadas medidas do comprimento dos ossos úmero, rádio, fêmur e tíbia mediante incisões nas extremidades anatômicas das articulações que correspondem às extremidades dos referidos ossos. Tais medições não rotineiras forneceram elementos que possibilitaram o desenvolvimento do presente trabalho. Os ossos foram medidos através do paquímetro modificado contendo perpendicularmente uma haste fixa, afixada no ponto zero e uma haste móvel com um cursor. A haste fixa da régua foi posicionada junto à extremidade proximal do osso e a haste móvel na sua extremidade terminal, obtendo-se assim, o seu comprimento. Para medir os ossos, foram feitas incisões nos pontos das extremidades proximal e distal de cada articulação.

Vale lembrar que as incisões de rotina no exame necroscópico são as que permitem ampla exposição da cavidade craniana (incisão bi-mastóide vertical), da cavidade tóraco-abdominal (inçisão mento-púbica), a que expõe a cavidade vertebral (inçisão mediana-dorsal) e qualquer outra necessária ao diagnóstico médico-legal além da retirada de órgãos, fragmentos de tecidos e coleta de líquidos e secreções necessárias para exames complementares.

As medidas obtidas em 216 cadáveres (116 masculinos e 100 cadáveres femininos) forneceram elementos referenciais que permitiram ao médico legista, autor desenvolver a pesquisa.

A comparação dos resultados desta pesquisa com as estaturas obtidas mediante o uso das tabelas e de fórmulas de regressão conhecidas permite avaliar a relevância dos modelos ajustados com base em dados nacionais e que possam servir efetivamente como referência aos peritos, em suas atividades.

Deve-se ressaltar o fato de que, neste estudo, optou-se pela medida em cadáveres, por se entender que se conhecendo previamente a estatura do cadáver e medindo-se cada osso no seu locus anatômico, seria possível avaliar melhor a contribuição de cada osso longo pesquisado na construção de um modelo para estimar-se a estatura com fundamento nos cânones da Antropologia Forense.

A proposta desse trabalho foi então o produzir-se um primeiro passo no afã se ter referenciais nacionais que pudessem ajudar o trabalho do médico perito, não mais comparando tabelas e fórmulas de regressão para se obter uma média, a partir de modelos construídos em outros países.

 

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Com base nos dados coletados, foi realizado um estudo de correlação para verificar a existência de relação entre as medidas de ossos longos (úmero, rádio, fêmur e tíbia em mm) e estatura (em cm). Os dados obtidos também foram submetidos a uma análise de regressão, ajustando-se modelos estatísticos que permitissem obter estimativa da estatura de pessoas com base em medidas de ossos longos.

Para efeito de análise, foram considerados os dados dos homens e das mulheres separadamente, devido a possível influência de sexo sobre os resultados.

Através do estudo de regressão, pretende-se ajustar uma equação do tipo:

y = a + bx  (modelo linear)

que corresponde à equação de uma reta, onde:

y é a chamada variável dependente, isto é, estatura, cujo valor pretende-se estimar por este modelo;

a e b são os parâmetros estimados pelo método de regressão;

x é a variável preditora a partir da qual serão estimados valores da variável dependente, no caso, o comprimento dos ossos longos.

O teste F foi realizado para verificar a significância do modelo. Para a avaliação do modelo ajustado será utilizado o coeficiente de determinação, isto é, a estatística r² (lê-se r quadrado) que estima a porcentagem da variação da variável Y, que é explicada pelo modelo ajustado. Assim, é importante que o valor de r² seja o mais proximo de 100%, para que a estimativa da estatura esteja mais próxima do seu verdadeiro valor.

 

4.2. CORRELAÇÃO

A Tabela 1 apresenta os resultados da análise realizada com os dados dos homens e que contém o coeficiente de correlação de Pearson e um teste da hipótese de independência entre as variáveis consideradas.

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.36.02

 

Os coeficientes de correlação obtidos evidenciam a existência de uma relação entre as variáveis estatura e o comprimento dos ossos: úmero, rádio, fêmur e tíbia, isto é, existem indícios de que o aumento do comprimento dos ossos longos esteja associado a uma tendência de aumento na estatura.

Foi também calculado o coeficiente de correlação para as mulheres. A Tabela 2 apresenta o resultado obtido para os dados das mulheres:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.36.06

 

Nesse caso, os coeficientes de correlação encontrados também são significativos e evidenciam a existência de uma associação entre o aumento no comprimento dos ossos longos e a tendência de aumento na estatura das mulheres.

 

Ajuste de modelos

 

4.2. HOMENS

Para a análise dos dados dos homens, foram utilizadas 116 observações, considerando-se como variável de resposta, a estatura expressa em cm, isto é, a variável que se deseja estimar. Como se pretende predizer (estimar) a estatura dos homens, o fator ou variável preditora considerada foi comprimento dos ossos: Umero, Rádio, Fêmur e Tíbia, respectivamente.

 

4.2.1. Estatura em função do comprimento do úmero

Para a varíavel comprimento do úmero, foi ajustado o modelo linear. A análise com base em um modelo linear oferece evidências de que a variável comprimento do úmero está associada a valores de estatura. O quadro de análise de variância da regressão é apresentado a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.36.17

 

A partir do quadro de análise de variância, verifica-se que o modelo é significativo. Nesse caso, em particular, as estimativcas obtidas não serão tão satisfatórias, pois o valor da estatística r2 indica que 22,39% da variação observada na estatura pode ser atribuída ao comprimento do úmero e que pode ser considerado como muito baixo.

O coeficiente de variação de 3,85% pode ser considerado baixo para esse modelo indicando que o resíduo tem pequena participação na variação dos dados.

A tabela a seguir apresenta estimativa do coeficiente linear a e coeficiente angular b do modelo apresentado anteriormente. Através do modelo ajustado, torna-se possível estimar a estatura em função de um dado valor de comprimento do osso úmero.

 

 

Dessa forma, tem-se a seguinte equação:

Estatura = 123,03 + 0,1606 U

com um coeficiente de determinação (r2 ) igual a 22,39%, conforme figura a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.36.33

 

Construiu-se também, um intervalo de confiança para estimativa de estatura a partir de um valor mínimo, máximo e médio de comprimento do úmero. Os resultados estão na tabela a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.36.40

 

Para comprimento de úmero igual a 263 mm, que corresponde ao comprimento mínino observado para o úmero de homens, aplicando-se o modelo linear, obteve-se uma estimativa de estatura igual a de 165,27cm. Associada a essa estimativa, o intervalo construído varia de 151,78 a 178,76cm, com uma probabilidade de 95% de que contenha o verdadeiro valor para a estatura.

Para um comprimento de 377 mm, obtem-se uma estimativa de 183,58 cm e um intervalo de confiança com probabilidade de 95%, variando de 169,84 a 197,33cm.

Para um valor médio de comprimento de úmero igual a 309,93, a estimativa de estatura é de 172,81cm e o valor verdadeiro teria uma probabilidade de 95% de pertencer ao intervalo de 159,58 e 186,04cm.

 

4.2.2. Estatura em função do comprimento do rádio

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.36.45

 

Para a varíavel comprimento do rádio, foi ajustado o modelo linear, cuja análise oferece evidências de que a variável comprimento do rádio está associada a valores de estatura.

Entretanto, uma observação (assinalada na figura) foi excluída da análise, devido ao fato do comprimento do rádio (altura 189 e comprimento do rádio 233mm) encontrar-se muito diferente dos dados observados. Para esse caso em particular, para efeito de análise, foram consideradas 115 observações. O quadro de análise de variância da regressão é apresentado a seguir:

 

 

A partir do quadro de análise de variância, observa-se-se que o modelo é significativo. O valor da estatística r2 indica que 34,87% da variação observada na estatura pode ser atribuída ao comprimento do rádio, com um coeficiente de variação de 3,47% pode ser considerado baixo para esse modelo

A tabela a seguir apresenta estimativas do coeficiente linear a e coeficnete angular b do modelo linear apresentado anteriormente. Através do modelo ajustado torna-se possível estimar a estatura a partir de um dado comprimento para o osso rádio.

 

 

Dessa forma, tem-se a figura a seguir com a seguinte equação:

 

Estatura = 108,31 + 0,2417 R

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.37.07

 

com um coeficiente de determinação(r2 ) igual a 34,87%.

 Construiu-se também, um intervalo de confiança para estimativa de estatura a partir de um valor mínimo, máximo e médio de comprimento do rádio. Os resultados estão na tabela a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.37.14

 

Para o valor mínimo de comprimento de rádio igual a 224 mm, aplicando-se o modelo linear, obteve-se uma estimativa de estatura igual a de 162,45cm. Associada a essa estimativa, o intervalo construído varia de 150,24 a 174,66cm com uma probabilidade de 95% de que contenha o verdadeiro valor para a estatura.

Para um comprimento de 323 mm, obteve-se uma estimativa de 186,37 cm e um intervalo de confiança com probabilidade de 95%, variando de 173,94 a 198,80cm.

Para um valor médio de comprimento de rádio igual a 266,30mm, a estimativa de estatura é de 172,67 cm meses e o valor verdadeiro teria uma probabilidade de 95% de pertencer ao intervalo de 160,74 a 184,59cm.

4.2.3. Estatura em função do comprimento do fêmur

Para a varíavel comprimento do fêmur, o modelo ajustado foi o linear. Os resultados da análise de variância da regressão é apresentado a seguir:

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.48.57

 

A partir do quadro de análise de variância, verifica-se que o modelo é significativo. Nesse caso, em particular, as estimativas obtidas serão satisfatórias, pois o valor da estatística r2 indica que 56,62% da variação observada na estatura pode ser atribuída ao comprimento do fêmur e um coeficiente de variação igual a 2,88%.

A tabela a seguir apresenta estimativa do coeficiente linear a e coeficiente angular b do modelo ajustado, tornando-se possível estimar a estatura em função de um dado valor de comprimento do osso fêmur.

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.49.03

 

Dessa forma, tem-se a seguinte equação:

 Estatura = 77,67 + 0,2019 F

com um coeficiente de determinação(r2 ) igual a 56,62%.

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.49.09

 

Construiu-se também, um intervalo de confiança para estimativa de estatura a partir de um valor mínimo, máximo e médio de comprimento do fêmur. Os resultados estão na tabela a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.49.16

 

Para comprimento de fêmur igual a 425mm, que corresponde ao comprimento mínino observado para fêmur de homens, aplicando-se o modelo linear, obteve-se uma estimativa de estatura igual a de 163,52cm. Associada a essa estimativa, o intervalo construído varia de 153,51 a 173,53cm, com uma probabilidade de 95% de que contenha o verdadeiro valor para a estatura.

Para um comprimento de 558 mm obtém-se uma estimativa de 190,39cm e um intervalo de confiança com probabilidade de 95%, variando de 180,09 a 200,68cm.

Para um valor médio de comprimento de fêmur igual a 470,99mm, a estimativa de estatura é de 172,81cm e o valor verdadeiro teria uma probabilidade de 95% de pertencer ao intervalo de 162,92 a 182,71cm.

 

4.2.4. Estatura em função do comprimento da tíbia

Para a variável comprimento da tíbia, o modelo considerado foi linear. A análise com base em um modelo linear oferece evidências de que a variável comprimento do tíbia está associada a valores de estatura. O quadro de análise de variância da regressão é apresentado a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.49.20

 

A partir do quadro de análise de variância, verifica-se que o modelo é significativo. Nesse caso, as estimativas obtidas podem ser consideradas como satisfatórias, pois o valor da estatística r2 indica que 49,16% da variação observada na estatura pode ser atribuída ao comprimento da tíbia. O coeficiente de variação de 3,12% pode ser considerado baixo para esse modelo.

A tabela a seguir apresenta estimativa do coeficiente linear a e coeficiente angular b do modelo linear ajustado, tornando possível a obtenção de estimativas para a estatura em função de um dado valor de comprimento da tíbia.

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.49.25

 

Dessa forma, tem-se a seguinte equação:

 Estatura = 102,62 + 0,1807 T

com um coeficiente de determinação (r2 ) igual a 49,16%.

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.49.30

 

Construiu-se também, um intervalo de confiança para estimativa de estatura a partir de um valor mínimo, máximo e médio de comprimento da tíbia. Os resultados estão na tabela a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.49.35

 

Para comprimento de tíbia igual a 336 mm, que corresponde ao comprimento mínino observado para o úmero de homens, aplicando-se o modelo linear, obteve-se uma estimativa de estatura igual a de 163,33cm. Associada a essa estimativa, o intervalo construído varia de 152,47 a 174,19 cm, com uma probabilidade de 95% de que contenha o verdadeiro valor para a estatura.

Para um comprimento de 468mm obtem-se uma estimativa de 187,18cm e um intervalo de confiança com probabilidade de 95%, variando de 176,13 a 198,23cm.

Para um valor médio de comprimento da tíbia igual a 388,47mm, a estimativa de estatura é de 172,81cm meses e o valor verdadeiro teria uma probabilidade de 95% de pertencer ao intervalo de 162,09 a 183,52cm.

 

4.3. MULHERES

De maneira similar ao estudo elaborado com os dados dos homens, foi efetuado um estudo de regressão com os dados das mulheres. Os resultados obtidos no estudo são listados em seguida e comentados.

A partir dos resultados apresentados na Tabela 2, verifica-se que para os dados relativo às mulheres pode-se ajustar um modelo linear.

 

4.3.1. Estatura em função do comprimento do úmero

Para os dados relativos às mulheres, existe forte evidência estatística de que a estatura esteja linearmente associada com o comprimento do úmero.

O quadro de análise de variância da regressão é apresentado a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.49.40

 

A partir do quadro de análise de variância, verifica-se que o modelo é significativo e o valor da estatística r2 indica que 35,92% da variação observada na estatura pode ser atribuída ao comprimento do úmero. O coeficiente de variação de 3,83% pode ser considerado baixo para esse modelo.

A tabela a seguir apresenta estimativa do coeficiente linear a e coeficiente angular b do modelo linear ajustado, possibilitando a obtenção de estimativas da estatura, em função de um dado valor de comprimento do osso úmero.

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.49.45

 

Dessa forma, tem-se a seguinte equação: 

Estatura = 91,22 + 0,2495 U

 com um coeficiente de determinação (r2 ) igual a 35,92%.

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.49.49

 

Construiu-se, também, um intervalo de confiança para estimativa de estatura, a partir de um valor mínimo, máximo e médio de comprimento do úmero. Os resultados estão na tabela a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.49.55

 

Para comprimento de úmero igual a 236 mm, que corresponde ao comprimento mínino observado para o úmero de mulheres, aplicando-se o modelo linear, obteve-se uma estimativa de estatura igual à de 150,13cm. Associada a essa estimativa, o intervalo construído varia de 136,92 a 163,34cm, com uma probabilidade de 95% de que contenha o verdadeiro valor para a estatura.

Para um comprimento de 364 mm, obtem-se uma estimativa de 182,07 cm e um intervalo de confiança com probabilidade de 95%, variando de 168,65 a 195,49cm.

Para um valor médio de comprimento de úmero igual a 295,06mm, a estimativa de estatura é de 164,87cm e o valor verdadeiro teria uma probabilidade de 95% de pertencer ao intervalo de 152,26 a 177,48cm.

 

4.3.2. Estatura em função do comprimento do rádio

Para a varíavel comprimento do rádio, foi ajustado o modelo linear. Os resultados da análise indicam que existe evidência estatística de que a estatura esteja linearmente associada com o comprimento do rádio.

O quadro de análise de variância da regressão é apresentado a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.50.00

 

A partir do quadro de análise de variância, observa-se que o modelo é significativo e o valor da estatística r2 indica que 36,69% da variação observada na estatura pode ser atribuída ao comprimento do rádio. O coeficiente de variação de 3,81% pode ser considerado baixo para esse modelo.

A tabela a seguir apresenta estimativas do coeficiente linear a e coeficiente angular b do modelo linear ajustado.

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.50.06

 

Dessa forma, tem-se a seguinte equação: 

Estatura = 101,61 + 0,2549 R

com um coeficiente de determinação (r2 ) igual a 59,54%.

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.50.12

 

Construiu-se, também, um intervalo de confiança para estimativa de estatura, a partir de um valor mínimo, máximo e médio de comprimento do rádio. Os resultados estão na tabela a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.50.18

 

Para o valor mínimo de comprimento de rádio igual a 214mm, aplicando-se o modelo linear, obteve-se uma estimativa de estatura igual a de 156,18cm. Associada a essa estimativa, o intervalo construído varia de 143,44 a 168,92cm, com uma probabilidade de 95% de que contenha o verdadeiro valor para a estatura.

Para um comprimento de 338 mm obteve-se uma estimativa de 187,79cm e um intervalo de confiança com probabilidade de 95%, variando de 173,88 a 201,70cm.

Para um valor médio de comprimento do rádio igual a 248,1, a estimativa de estatura é de 164,87 cm meses e o valor verdadeiro teria uma probabilidade de 95% de pertencer ao intervalo de 152,34 a 177,40cm.

 

4.3.3. Estatura em função do comprimento do fêmur

Para os dados relativos às mulheres, existe forte evidência estatística de que a estatura esteja linearmente associada com o comprimento do fêmur.

O quadro de análise de variância da regressão é apresentado a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.50.22

 

A partir do quadro de análise de variância, verifica-se que o modelo é significativo e o valor da estatística r2 indica que 46,56% da variação observada na estatura pode ser atribuída ao comprimento do fêmur. O coeficiente de variação de 3,50% pode ser considerado baixo para esse modelo.

A tabela a seguir apresenta estimativa do coeficiente linear a e coeficiente angular b do modelo linear ajustado possibilitando a obtenção del estimativas da estatura em função de um dado valor de comprimento do osso fêmur.

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.50.27

 

Dessa forma, tem-se a seguinte equação: 

Estatura = 62,89 + 0,2385 F

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.50.40

 

com um coeficiente de determinação (r2 ) igual a 46,56%.

 Construiu-se, também, um intervalo de confiança para estimativa de estatura a partir de um valor mínimo, máximo e médio de comprimento do fêmur. Os resultados estão na tabela a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.50.46

 

Para comprimento de úmero igual a 360mm, que corresponde ao comprimento mínino observado para o fêmur de mulheres, aplicando-se o modelo linear, obteve-se uma estimativa de estatura igual a 148,76cm. Associada a essa estimativa, o intervalo construído varia de 136,74 a 160,78cm, com uma probabilidade de 95% de que contenha o verdadeiro valor para a estatura.

Para um comprimento de 472mm, obtem-se uma estimativa de 175,47cm e um intervalo de confiança com probabilidade de 95%, variando de 163,74 a 187,21cm.

Para um valor médio de comprimento de fêmur igual a 427,54mm, a estimativa de estatura é de 164,82cm e o valor verdadeiro teria uma probabilidade de 95% de pertencer ao intervalo de 153,36 a 176,38cm.

 

4.3.4. Estatura em função do comprimento da tíbia

Ajustou-se o modelo linear porque existe evidência estatística de que a estatura esteja linearmente associada com o comprimento da tíbia.

O quadro de análise de variância da regressão é apresentado a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.50.51

 

A partir do quadro de análise de variância observa-se-se que o modelo é significativo e o valor da estatística r2 indica que 32,88% da variação observada na estatura pode ser atribuída ao comprimento da tíbia. O coeficiente de variação de 3,92% pode ser considerado baixo para esse modelo.

A tabela a seguir apresenta estimativas do coeficiente linear a e coeficiente angular b do modelo linear ajustado.

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.50.55

 

Dessa forma, tem-se a seguinte equação:

Estatura = 94,03 + 0,20001 T

 com um coeficiente de determinação (r2 ) igual a 32,88%.

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.51.00

 

Construiu-se, também, um intervalo de confiança para estimativa de estatura a partir de um valor mínimo, máximo e médio de comprimento da tíbia. Os resultados estão na tabela a seguir:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.51.04

 

Para o valor mínimo de comprimento da tíbia igual a 300mm, aplicando-se o modelo linear, obteve-se uma estimativa de estatura igual a de 154,05cm. Associada a essa estimativa, o intervalo construído varia de 140,78 a 167,32cm, com uma probabilidade de 95% de que contenha o verdadeiro valor para a estatura.

Para um comprimento de 408mm, obteve-se uma estimativa de 175,66cm e um intervalo de confiança com probabilidade de 95%, variando de 162,39 a 188,93cm.

Para um valor médio de comprimento da tíbia igual a 354,06, a estimativa de estatura é de 164,87 cm e o valor verdadeiro teria uma probabilidade de 95% de pertencer ao intervalo de 151,97 a 177,77cm.

 

5. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

 Considerando-se que a estatura é dado fundamental na Antropologia Forense, coletaram-se dados de indivíduos brasileiros do sexo masculino e feminino que permitissem estabelecer, ainda que preliminarmente, modelos para a obtenção de estimativas da estatura, com base em comprimento de ossos longos.

O estudo relativo à obtenção da estimativa de estatura a partir do comprimento dos ossos longos (úmero, rádio, fêmur e tíbia), permitiu verificar que existem diferenças entre indíviduos do sexo masculino e feminino, evidenciadas pela obtenção de modelos estatísticos distintos. Verificou-se que:

  • existe correlação positiva entre as variáveis estudadas, isto é, com o aumento do comprimento dos ossos existe uma tendência de aumento na estatura, tanto para o sexo masculino quanto para o sexo feminino:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.51.09

 

  • os modelos ajustados para a obtenção da estimativa da idade foram respectivamente :

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.59.53

 

Para a avaliação dos modelos ajustados, foram calculados o coeficiente de determinação ( ) em relação a cada osso e para os sexos masculino e feminino:

 

Captura de Tela 2016-09-27 às 21.51.15

 

Foi constatado que os ossos fêmur e tíbia, respectivamente, são mais importantes nos cálculos para o estabelecimento da estatura, fato já citado nas pesquisas de Mendonça (1999). Trotter e Gleser (1971) também fizeram esta inferência a respeito destes ossos. Já os estudos de Krogman e Iscan (1986) referem a maior importância ao fêmur quando se estudam as raças branca e amarela, e a tíbia quando se estuda a raça negra. Conforme relatado acima, na presente pesquisa, os ossos que conferiram maior assertividade aos cálculos da estatura foram o fêmur e a tíbia, com uma pequena margem de prevalência para o fêmur. Quando na ausência dos ossos dos membros inferiores, pode-se apelar para os ossos do membro superior, porém com uma maior margem de erro.

Identificados os sexos, o que pode ser feito através de estudos também nos ossos longos, pode-se perceber que na análise de ossos femininos, as medidas dos ossos dos membros superiores são bem mais significativas, ou seja, conferem mais assertividade à busca da estatura que a mesma busca quando se está examinando ossos masculinos dos mesmos membros.

Apesar dos valores obtidos serem relativamente baixos tanto para indivíduos do sexo masculino quanto para indivíduos do sexo feminino, verfica-se que a utilização dos modelos ajustados para a obtenção de estimativas da estatura a partir do comprimento dos ossos úmero, rádio, fêmur e tíbia – pode ser considerada como relativamente satisfatória. Em particular observa-se que para os ossos fêmur e tíbia de indivíduos do sexo masculino, os coeficientes de determinação são maiores, evidenciando o potencial uso de modelos lineares para a obtenção de estimativas.

Deve-se ressaltar o caráter exploratório na obtenção do modelo estatístico, pois os valores obtidos evidenciam a necessidade que, em estudos futuros seja preciso aumentar o número de observações para cada estatura, devido a grande variabilidade observada, principalmente entre os homens, onde os coeficientes de determinação para modelos envolvendo úmero e rádio foram os menores.

Além disso, os valores obtidos evidenciam a existência de outras causas ou de outros fatores relacionados aos indivíduos que poderiam estar influenciando as variáveis e que precisam ser melhor exploradas. Entre estas variáveis, devemos ressaltar a necessidade de se correlacionarem os biotipos (brevilíneo, normolíneo e longilíneo) com a estatura, pois dependendo da correlação entre o comprimento do tronco e o comprimento dos membros, estaria estabelecida uma variável muito importante a ser pesquisada.

Deve-se ainda salientar que a variavel raça não deve ser levada em conta no Brasil, pois sua intensa miscegenação racial dificulta sobremaneira o estabelecer-se com um mínimo de segurança qualquer padrão racial.

Tem-se que considerar também os diferentes padrões de ingestão de proteínas pelas mães na gestação, em cada camada da população e em cada região do país, assim como os diferentes padrões alimentares na primeira infância e durante a puberdade, também em cada camada social e em cada região do país – pois é conhecida a influência destes fatores nutricionais, na construção da estatura humana.

Nesta pesquisa, não foram detectadas diferenças nas medidas realizadas no lado direito ou no esquerdo do cadáver, como alguns autores citam. Este dado, portanto, não foi relevante.

As variavéis acima referenciadas são objeto de preocupações para próximos estudos. A busca de padrões nacionais confiavéis no que diz respeito à estatura, deve continuar, pois por muito que se tenha avançado, ainda é pouco dado à relevância do tema. As fórmulas de regressão apresentadas obedecem aos pressupostos já referidos por Almeida Júnior e Costa Júnior (1978), segundo os quais os modelos matemáticos são mais confiavéis que as tabelas, no estabelecimento da estatura a partir do comprimento dos ossos longos.

Esta equações que apresentamos podem ser utilizadas para os casos que existam na nossa região e ainda no Brasil. Faz-se mister alertar que as fórmulas de regressão clássicas e as tabelas já conhecidas e apresentadas neste trabalho, também servem de referência.

Não existe a pretensão de se substituírem pura e simplesmente os modelos até hoje utilizados, sim contribuir para uma maior assertividade no estabelecimento da estatura, pois ela é fundamental na Antropologia Forense.

Quanto ao método e instrumentos utilizados pelo pesquisador no levantamento dos dados, mostraram ser eficientes no que toca à construção de padrão nacional para o estabelecimento de estatura, a partir da medida de ossos longos. Portanto, os mesmos procedimentos poderão ser utilizados em pesquisas mais abrangentes que envolvam toda complexidade do tema.

Finalmente, os elementos apresentados mostram que o modelo estatístico utilizado tem um grande potencial de uso, apesar da complexidade em um dos assuntos de maior interesse na medicina e odontologia legal que é a determinação de estatura.

 

5.2 RECOMENDAÇÕES

Esta pesquisa foi realizada utilizando-se amostra de cadáveres frescos, o que permitiu, portanto, estabelecer-se a estatura previamente. O cálculo da estimativa da estatura no indivíduo vivo pode ser feito através de medidas no cadáver, sabendo-se que existe uma diferença de aproximadamente dois centímetros.

Desde Manouvrier, em 1892, é reconhecida a diferença entre a estatura no indivíduo vivo e no cadáver. Levando-se em consideração os estudos de Trotter e Gleser, de 1952, a diferença seria de 2,5 centímetros, devendo-se tal diferença ao achatamento dos discos intervetebrais na posição bípede no vivo, o que, no cadáver, não acontece.

Os valores estabelecidos neste estudo têm como referência as medidas no cadáver e, portanto, deve-se ter este fato em mente quando da aplicabilidade destas fórmulas de regressão.

Quando o perito examinar ossadas humanas, deve levar em consideração que os ossos secos são menores que os ossos frescos em cerca de 3 milímetros, fato já estabelecido há cerca de cem anos. Ao examinar esqueletos, o perito deve acrescer de 4 a 6 centímetros na estatura, devido à 78 espessura do couro cabeludo, aos discos intervertebrais, à espessura das cartilagens e das solas dos pés, fatos já citados por Arbenz, em 1988.

As variações raciais e do biótipo, numa comunidade, determinam variáveis na estatura, como reconheceram Genovés, em 1967, e Tanner, em 1986.

Não se levou em consideração o fator idade, neste estudo, pois as degenerações ósseas decorrentes da idade têm um caráter muito peculiar e atende a fatores biológicos não detectáveis nesta pesquisa.

As patologias degenerativas que levam à diminuição da estatura por achatamento dos discos vertebrais, por curvatura da coluna ou por aumento do ângulo de inclinação do fêmur, devido a melhoria das condições de nutrição e higiene, tendem a aparecer cada vez mais tardiamente, enquanto as lesões traumáticas ocorrem com muito mais frequência nos indivíduos jovens. Portanto, durante o ato pericial, o perito deve perceber se patologia osteo-degenerativa eventualmente presente influiria, ou não, no estabelecimento da estatura.

É necessário enfatizar-se que nesta pesquisa os ossos dos membros inferiores têm mais significação no estabelecimento da estatura que os ossos dos membros superiores.

No sexo feminino, os ossos dos membros superiores têm maior significação que os ossos dos mesmos membros, no sexo masculino.

As medidas dos ossos foram realizadas na posição anatômica por se entender que, assim sendo feitas, as correlações entre estatura e ossos longos seriam estabelecidas com maior segurança.

Quanto às medidas realizadas no fêmur, levou-se em consideração o chamado comprimento fisiológico, oblíquo ou bi-condiliano, pois as medidas foram realizadas no cadáver sem a retirada do osso do seu locus anatômico. A medida, que também pode ser realizada pelo comprimento perpendicular máximo, não foi realizada, pois implicaria na retirada do osso e não mudaria o referencial, fato já comprovado por Mendonça, em 1999.

Espera-se que esta pesquisa e seus resultados possam contribuir efetivamente para o estabelecimento de padrões nacionais em Antropologia Forense.

Sabe-se que a técnica, quando utilizada na busca do verdadeiro conhecimento, embasa a prática da Ética. É com este espírito e embasado na conceituação da verdade objetiva e lógica, que a presente pesquisa pretende ser também alento e instrumento para aqueles que buscam na prática técnica e no conhecimento científico, objetivos para um evoluir constante da Medicina Pericial.

 

 

 

 

Artigo impresso em: 2019-03-20 16:35:35


6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Almeida Jr A, Costa Jr JBO. Lições de Medicina Legal. 15ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1978.

Arbenz GO. Medicina Legal e Antropologia Forense. São Paulo: Livraria Atheneu, 1988.

Berlin I. Quatro Ensaios sobre a Liberdade. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981.

Carrea JU. Ensaios Odontométricos [Tese Doutorado]. Buenos Aires: Universidade Nacional de Buenos Aires, 1920.

Chiba M, Terazawa K. Estimation of stature from somatometry of skull. Forensic Sei Int. 1998. 97: p 87-92. https://doi.org/10.1016/S0379-0738(98)00145-5

Choi BY, Chae YM, Chung IH, Kang HS. Correlation between the postmorten stature and the dried limb-bone lengths of Korean adult males. Yonsei Med J. 1997; 38: p 79-85. https://doi.org/10.3349/ymj.1997.38.2.79

Coma JMR. Antropologia Forense. Madrid: Ministerio de Justicia, Secretaria General Tecnica Centro de Publicaciones; 1991.

Comas J. Manual de Antropologia Física. 2ed. Mexico: Fondo de Cultura Economica; 1966.

Dobzhanski TG. Genética do processo de evolução. São Paulo: Edusp; 1970.

Fávero F. Medicina Legal: Introdução ao estudo da medicina legal, identidade, traumatologia. 12ed. Belo Horizonte: VillaRica; 1991.

Formicola V, Giannecchini M. Evolutionary trends of stature in upper Paleolithic and Mesolithic Europe. J Hum Evol. 1999; 36: 313- 333. https://doi.org/10.1006/jhev.1998.0270

França GV. Medicina Legal. 5ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1998.

Gardner E, Gray DJ, Rahill Y. Anatomia: estudo regional do corpo humano. 4ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1988.

Jasuja OP, Harbhajan S, Anupama K. Estimation of stature from stride length while walking fast. Forensic Sei Int. 1997; 86: p 181-186. https://doi.org/10.1016/S0379-0738(97)00038-8

Mendonça MC. Determinação da Estatura pelo comprimento dos ossos longos [Pesquisa ligada à departamento universitário]. Porto: Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, 1999.

Pataro O. Medicina Legal e Prática Forense. São Paulo: Saraiva, 1976.

Prado PA. Medicina Legal e Deontologia Médica. São Paulo: Editora Juriscredi. 1972.

Pretty Gl, Henneberg M, Lambert Km, Prokopec M. Trends in stature in the South Australian aboriginal Murraylands. Am J Phys Anthrop. 1998; 106: p 505-514.

Rodriguez Cuenca JVR. Introduccion a la Antropologia Forense [Tese]. Santafé de Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, 1994.

Rojas N. Medicina Legal. 7ed. Buenos Aires: Librería El Ateneo Editorial, 1958.

Souza Lima AJ. Tratado de Medicina Legal. 6ed. Rio de Janeiro: Livraria Editora Freitas Bastos, 1938.

Tanner JM. Grout at Adolescence. 2ed. Washington: Blackwell, 1962.

Telkkã A. On the prediction of human stature from the long bones. Acta Anatomica. 1950; 9: p 103-117.

Trotter M, Gleser CG. Corrigenda to “Estimation of Stature from long Limb bones of American Whites and Negroes”. Am J Phys Anthrop. 1977; 47: p 355-56. https://doi.org/10.1002/ajpa.1330470216

Trotter M, Gleser CG. apud França GV. Medicina Legal. 5ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.

Vasconcelos G. Lições de Medicina Legal. 2ed. Rio de Janeiro: Forense, 1976.

Voss LD, Bailey BJ. Diurnal variation in stature: is stretching the answer?, in Arch Dis Child. 1997; 77: p 319-322.

Warren MWY, Maples WR. The Anthropometry of contemporary commercial cremation. J Forensic Sci. 1997; 42: p 417-423.

José Jozefran Berto Freire

Cremesp 17288

José Jozefran Berto Freire


ABMLPM - Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas - afiliada à AMB
Escritório Administrativo - Av. Brigadeiro Luiz Antonio, 278 – 7º andar – Bela Vista
São Paulo – SP – CEP: 01318-901
Fone: (11) 3101-5994 / Celular: (11) 9.7403-4818 (operadora Vivo)

1118



Traduzir »