TOPO
PERFIL DA VIOLÊNCIA COM MORTALIDADE RELACIONADA AOS ACIDENTES DE TRÂNSITO EM ALAGOAS – Perspectivas
fade
4347
single,single-post,postid-4347,single-format-standard,eltd-core-1.0,perspectivas alto grau-ver-1.0,,eltd-smooth-page-transitions,ajax,eltd-grid-1300,eltd-blog-installed,page-template-blog-standard,eltd-header-vertical,eltd-sticky-header-on-scroll-up,eltd-default-mobile-header,eltd-sticky-up-mobile-header,eltd-dropdown-default,wpb-js-composer js-comp-ver-4.12,vc_responsive
GRAFICO1

PERFIL DA VIOLÊNCIA COM MORTALIDADE RELACIONADA AOS ACIDENTES DE TRÂNSITO EM ALAGOAS

Projeto de pesquisa aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação Universitária de Ciências da Saúde / Escola de Ciências Médicas de Alagoas, sob o parecer/cadastro número 1.482.327, registrado no SISNEP sob o número 51052915.5.0000.5011, contemplado pela bolsa de pesquisa da instituição/programa CNPq/PIBIC. As autoras informam a inexistência de conflito de interesse na realização desta pesquisa.

 

PROFILE OF DEATHS ARISING FROM TRAFFIC ACCIDENTS CATALOGUED IN THE IML OF MACEIÓ, BETWEEN 2011 AND 2015

Jessyca Montenegro Matthews de Lyra (1)

Alzeane de Araújo Lucena (1)

Maria Luísa Duarte (1)

(1) Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, Maceió-AL, Brasil.

anelucena1@gmail.com

RESUMO

Os acidentes de transporte terrestre configuram-se como um problema de saúde pública, pois dizimam indivíduos economicamente ativos, desestruturam famílias e trazem altos custos ao Brasil. O objetivo deste estudo foi determinar o perfil epidemiológico das vítimas fatais de acidentes de trânsito em Alagoas no período de janeiro de 2011 a dezembro de 2015. O estudo foi observacional, descritivo e analítico e as informações foram colhidas nos registros de entrada de cadáveres do arquivo do Instituto Médico Legal Estácio de Lima de Maceió, no período descrito. Das 1.917 fichas cadavéricas analisadas, o predomínio (83%) foi do gênero masculino, na faixa etária de 20 a 29 anos. No universo pesquisado, predominaram as vítimas que não possuíam curso superior declarado (85%). Os óbitos ocorridos com maior frequência foram de solteiros (58%) e pardos (74%). Preponderaram acidentes fatais em rodovias municipais (46%), destacando-se as ocorrências de sexta a domingo (54%), entre 18h01min a 00h00min (39%). Motocicletas (47%) e automóveis (26%) foram os meios de transporte prevalentes e o principal tipo de acidente foi a colisão (42%). Nas vias públicas verificaram-se mais óbitos (54%), estando Maceió no topo dos sinistros (34,8%). Já a principal causa da morte foi o politraumatismo (30%). Os resultados encontrados são semelhantes aos de outras pesquisas efetuadas em nosso país com o mesmo objetivo. Este estudo contrapõe-se à precariedade de fontes sobre este tema no estado de Alagoas, e torna possível que esses dados possam no futuro ser empregados em políticas governamentais que tragam melhorias para a população.

Palavras-chave: Acidentes de trânsito, Acidentes de transporte, Mortalidade, Medicina legal.

ABSTRACT

Land traffic accidents are a public health problem, since they decimate economically active individuals, disorganize families and bring high costs to Brazil. The objective of this study is to determine the epidemiological profile of the fatal victims of traffic accidents in Alagoas from January 2011 to December 2015. The study was observational, descriptive and analytical and the information was collected in the records of cadavers from the archive of the Legal Medical Institute Estácio de Lima from Maceió, during the period described. Of the 1.917 cadaveric records analyzed, 83% were male, in the 20-29 age range. In the universe surveyed, victims with no higher education were a majority (85%). The most frequent deaths were of unmarried individuals (58%) and of brown complexion (74%). Prevalence of fatal accidents happened on municipal highways (46%), highlighting occurrences from Friday to Sunday (54%), from 18:01 to 00:00 (39%). Motorcycles (47%) and automobiles (26%) were the main means of transportation and the main type of accident was collision (42%). On the public roads, there were more deaths (54%), with Maceió at the top of the claims (34.8%). The main cause of death was polytrauma (30%). The results are similar to those of other surveys carried out in our country with the same objective. This study goes against the precariousness of sources on this subject in the state of Alagoas, and enables this data to be used in government policies that bring improvements to the population in the future.

Keywords: Accidents of transit, Accidents of transport, Mortality, Legal medicine.

 

1.INTRODUÇÃO 

A morbimortalidade por acidente de transporte terrestre no Brasil é um fenômeno extremamente complexo e de elevada magnitude. Na verdade, é reflexo negativo em um país com investimento tardio em segurança viária, em contraponto a uma vigorosa política de incentivo à instalação de novos parques automobilísticos, e sem estabelecimento de educação para o trânsito nos níveis educacionais básicos (1). Nas duas últimas décadas do século XX, os acidentes de trânsito passaram a ser considerados um problema de saúde pública, devido aos dispêndios que deles decorrem. Vale classificar estes custos em: despesas médico-hospitalares, implicação em processos judiciais, congestionamento, custo previdenciário, danos ao mobiliário urbano e à propriedade de terceiros, dentre outros (2). Todo este cenário, para ser modificado, deve ganhar o alcance da mídia e a opinião pública, e para isso deve-se investigar cientificamente as causas, efeitos, conseqüências e soluções para minimização e controle dos impactos decorrentes de tais acidentes (3).

Há uma relação muito íntima entre acidentes de trânsito e consumo de bebidas alcoólicas (4), apesar da instituição de mecanismos inibidores contidos na denominada “Lei Seca” (Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997, modificada pelas Leis nºs 11.705, de 19 de junho de 2008 e 12.760, de 20 de dezembro de 2012) (5). O álcool, além de alterar a capacidade visual do indivíduo, aumenta as chances de o mesmo dirigir acima do limite de velocidade, sem a percepção do dano que pode causar com seu baixo reflexo motor (5), o que pode ocasionar a elevação do número de acidentes e a gravidade destes.

Em relação às vítimas desses acidentes, desde 2010, os motociclistas ocupam o primeiro lugar de risco em óbito. Contudo, os ocupantes de veículos automotores também apresentam tendência crescente de morte (6). Outro grupo bastante vulnerável é o dos ciclistas, que principalmente nas regiões metropolitanas apresentam-se expostos pela proximidade nas vias condutoras, sem sinalização adequada (1), e tão pouco sem faixas exclusivas em favor dos mesmos (7).

Tudo isso demonstra a necessidade de se identificarem grupos vulneráveis, além de fatores de risco para que possam ser elaboradas políticas públicas baseadas em evidências (8).

A proposta para a execução desse projeto despontou a partir das evidências descritas, que nos certifica da gravidade desse problema, assim como da carência, no estado de Alagoas, de estudos que detalhem informações importantes como o perfil epidemiológico dos indivíduos que vão a óbito devido a essa causa externa, dificultando assim a criação de medidas que visem intervir em áreas prioritárias.

 

2. MATERIAL E MÉTODO

 A pesquisa é descritiva e analítica, pois visa determinar as características de um grupo específico, assim como identificar fatores que possam contribuir para sua ocorrência. Também é documental, já que o material utilizado não sofrera tratamento analítico prévio (9) e possui natureza observacional, tendo em vista que não interferimos no curso natural dos fatos (10).

As informações foram obtidas mediante exame das fichas cadavéricas arquivadas no Instituto Médico Legal Estácio de Lima de Maceió-Alagoas, durante cinco anos, compreendendo o período de janeiro de 2011 a dezembro de 2015. A escolha do método foi fundamentada em outros estudos (11,12) que possuíam objetos semelhantes aos deste. Os dados foram colhidos por meio de um protocolo elaborado para tal finalidade, o qual possuía questões fechadas e abertas. As fichas cadavéricas contendo número insuficiente de informações foram excluídas.

As variáveis analisadas foram: gênero, idade, estado civil, nível de escolaridade, raça/cor, tipo de veículo, local de ocorrência do acidente, tipo de acidente, local de ocorrência do óbito, dia da semana, horário, município de ocorrência do acidente e causas de morte.

Analisando os dados catalogados, a amostra foi definida. Os resultados serão apresentados descritivamente, por intermédio de tabelas elaboradas no editor de texto Word, com gráficos produzidos pelo Software Origin 8.0.

As autoras informam a inexistência de conflito de interesse na realização desta pesquisa.

 

3. RESULTADOS 

Foram analisadas 1.917 fichas cadavéricas dos arquivos do IML, preenchidas entre o período de 01/01/2011 a 31/12/2015, cada qual correspondendo a uma vítima fatal de acidente de trânsito, sendo 1.604 do gênero masculino (83,6%) e 313 do gênero feminino (16,4%). Do quinquênio sob análise, a idade das vítimas fatais predominante compreende as da faixa etária entre 20 e 39 anos (47,22%).

Do universo pesquisado, imperaram as vítimas sem curso superior declarado (74,76%). Os óbitos com maior freqüência foram observados em indivíduos solteiros (54,05%) e pardos (67,14%) (Tabela 1).

Características da vítima Masculino Feminino Total
     n          % n            % n               %          
Faixa etária 1604  313 1917
0-10 26           1,62  18         5,75 44        2,29
11-19 129         8,04  33        10,54 162      8,45
20-39 783        48,82 122       38,98 905      47,22
40-59 483        30,12  85        27,16 568      29,64
60 ou mais 157         9,78  50        15,98 207      10,79
Sem informação 26           1,62  5          1,59 31        1,61
Estado civil      
Solteiro 874        54,48 162       51,77 1036     54,05
Casado 547        34,12 98         31,32 645       33,65
Viúvo 30          1,87 27         8,62 57         2,97
Divorciado 24          1,49 6           1,91 30         1,56
Não informado 129        8,04 20         6,38 149       7,77
Nível de escolaridade
Com nível superior declarado 24         1,49 18         5,75 42         2,19
Sem nível superior declarado 1217     75,89 216       69,03 1433     74,76
Aposentado 96         5,98 29         9,26 125       6,52
Desempregado 44         2,74 4           1,27 48         2,50
Não informado 223       13,90 46         14,69 269       14,03
Cor/Raça
Branca 273       17,03 76         24,29 349       18,21
Preta 80         4,98 5           1,59 85         4,43
Parda 1097     68,39 190       60,71 1287     67,14
Indígena
Amarela
Não informado 154       9,60 42         13,41 196       10,22

Tabela 1. Características sociodemográficas das vítimas fatais envolvidas em acidentes de trânsito catalogadas nas fichas cadavéricas no período de 2011-2015 no IML Estácio de Lima, Maceió/AL.

 

De acordo com o Gráfico 1, o ano de 2014 apresentou o maior número de infortúnios fatais, com 408 óbitos, seguido dos anos de 2011 e 2012, cada qual com 407 óbitos. Os menores registros ocorreram em 2013 e 2015, com 398 e 297 óbitos, respectivamente.

GRAFICO1

  

Com relação ao local do acidente, as vias municipais (incluindo as estradas vicinais), respondem por 31,2% das mortes, ou 599 vítimas fatais. As rodovias federais representam 21,5%, com 414 óbitos, e nas vias sob jurisdição estadual foram identificados 243 óbitos, representando 12,7% do universo pesquisado. Maceió, com 668 óbitos declarados (34,84%), seguida de Coruripe, com 94 óbitos (4,90%), São Miguel dos Campos, com 92 óbitos (4,80%), e Rio Largo, com 81 óbitos (4,22%), estão no topo da lista dos acidentes fatais (Tabela 2).

Municípios Número de vítimas %
Maceió

Coruripe

São Miguel dos Campos

Rio Largo

União dos Palmares

668

94

92

81

79

34,84

4,90

4,80

4,22

4,12

Pilar 75 3,92
Marechal Deodoro 74 3,86
Atalaia 54 2,82
Messias 53 2,76
Joaquim Gomes 46 2,40
São José da Laje 38 1,98
Maragogi 36 1,88
Murici 34 1,77
Novo Lino 31 1,62
Outros 439 22,91
Não informado 23 1,20

Tabela 2. Ocorrência de acidentes de transito prevalecentes por município entre o período de 2011- 2015 no IML Estácio de Lima, Maceió/AL.

 

Motocicletas (26,76%) e automóveis de passeio (14,92%) estão à frente dentre os meios de transportes envolvidos nas mortes, sendo hegemônicos os tipos de acidentes por atropelamento (25,4%) e por colisão (26,71%). Foram catalogadas 1034 mortes no próprio local do acidente (53,94%), e 762 mortes diagnosticadas em estabelecimentos de saúde (39,75%).

 

A causa mortis foi resultante, em sua maioria, de politraumatismo (30,26%) e de Traumatismo Crânio Encefálico – TCE (26,6%). (Tabela 3).

Variáveis N %
Causa mortis
Politraumatismo 580 30,26
TCE 510 26,60
Hemorragia aguda 135 7,04
Choque neurogênico 77 4,02
Lesão do tecido cerebral 157 8,19
Outros 448 23,37
Não informado 10 0,52
Tipo do veículo  
Motocicleta 513 26,76
Automóvel 286 14,92
Pedestre 206 10,75
Bicicleta 46 2,40
Caminhão 14 0,73
Trator 7 0,36
Outros 8 0,42
Não informado 837 43,66
Local de ocorrência do óbito    
Via pública 1034 53,94
Em trânsito 91 4,75
Hospital 762 39,75
Residência 9 0,47
Não informado 21 1,09
Local de ocorrência do acidente
Via Federal 414 21,60
Via Estadual 245 12,78
Via Municipal 582 30,36
Via vicinal 17 0,89
Não informação 659 34,37
Tipo de acidente    
Colisão 512                 26,71
Atropelamento 487 25,40
Capotamento 94 4,90
Queda 114 5,95
Não informado 710 37,04
Dia da semana do acidente    
Segunda-quinta 851 44,39
Sexta-domingo 1033 53,89
Não informado 33

1,72

Tabela 3. Causa mortis predominantes e outros dados relacionados aos óbitos provocados por acidentes de transito catalogados entre 2011- 2015 no IML Estácio de Lima, Maceió/AL.

 

Demonstra-se no Gráfico 2 que os acidentes no período noturno, entre 18:01h e 00h (32,9%), são os mais recorrentes em Maceió e adjacências.

 

GRAFICO2

4. DISCUSSÃO 

Ponderando acerca da mortalidade decorrente de acidentes de transporte terrestre, devemos considerar três fatores que estão em inter-relação: as características das vias, dos indivíduos e dos tipos de veículos envolvidos (1). No desenvolvimento da pesquisa, são analisadas essas variáveis, tendo consciência da complexidade de fatores que se relacionam a esse agravo e das conseqüências que tais óbitos trazem para o crescimento socioeconômico do país.

A análise dos resultados revela a prevalência de vítimas fatais entre os homens (83%), concentradas, sobretudo na faixa etária entre 20-39 anos (47,2%). Esses dados coincidem com resultados obtidos em outros estudos nacionais (13,14,15) e também com a pesquisa feita pela Organização Mundial da Saúde, em que foi detectado que 2/3 dos óbitos por acidentes de trânsito no mundo acometem homens adultos jovens (16). Esse achado pode ser justificado pelo fato de que os mesmos se expõem com maior freqüência a fatores de risco, como conduzir em velocidade acima do limite permitido na via, ingerir bebidas alcoólicas e não utilizar cinto de segurança.

A maioria dos óbitos ocorreu em pessoas que não declararam possuir nível superior de escolaridade, solteiros e pardos. Montenegro et al (17), em estudo dos acidentes de trânsito no Distrito Federal entre os anos de 1996 e 2007, também encontrou prevalência de pardos (71%), com baixa escolaridade – entre 4 e 11 anos de freqüência escolar (54,8%), e solteiros (68,1%), em óbitos entre motociclistas. Em tese, os solteiros predominam por apresentarem atitudes mais desafiadoras no trânsito. A cor parda e a ausência do nível superior completo coincidem com o tipo mediano da população alagoana, como mostra o último censo do DATASUS de 2010, em que 53,5% dos jovens são pardos e com o 2º ciclo fundamental completo ou mais (18).

Os acidentes entre a sexta-feira e o domingo (53,8%) sobrelevam-se em comparação aos demais dias da semana, com mortes ocorrendo substantivamente nos fins de semana devido, em princípio, à ingestão de bebidas alcoolicas, a ultrapassagens mais arriscadas e à diminuição da fiscalização de trânsito, resultado com alto grau de equivalência detectado nas pesquisas realizadas em Sergipe (19) e no Piauí (20). Além disso, nesses dias, o trânsito está menos intenso, sem congestionamento, o que permite velocidades mais elevadas (1).

Os registros de óbitos ocorridos nas vias públicas, principalmente no próprio local do acidente (53,9%), predominaram nesse estudo, presumivelmente em decorrência da cinemática do acidente, pela relação velocidade x gravidade de lesões. Também se deve ressaltar a relevância do atendimento pré-hospitalar ofertado pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) (21), o qual, sem dúvida, contribuiu na redução da morbimortalidade da população alagoana.

Com relação ao horário, a primeira parte do período noturno, compreendida entre 18:01h a 00:00h (32,9%) sobressaiu-se em relação aos demais segmentos observados, sugerindo uma correlação entre menor fluxo de carros, diminuição da visibilidade nas estradas e má sinalização horizontal (1, 22). É provável que haja relação com o cansaço ao final do dia e ser o período no qual ocorre maior ingestão de bebida alcoólica (17).

Encontramos a maioria dos sinistros ocorrendo em vias municipais (30,3%), o que difere de estudos como de Fey et al (22), no qual as rodovias federais foram o principal local dos eventos (22,8%). No entanto, vale realçar que 34,3%, ou seja, 659 laudos periciais não continham tal informação, inviabilizando dispor de informações de universo amostral mais amplo, e assim aproximar-se da realidade de Maceió e seu entorno. Dos municípios examinados, a capital alagoana foi a cidade com maior registro dessa causa de morte externa, por ter um significativo número de veículos licenciados, da ocorrência constante de fluxo diário de veículos perfazendo o trajeto Maceió – cidades “dormitório” – Maceió, corroborado, nesse caso, por ter uma extensa malha rodoviária composta com as principais vias expressas do Estado, como as rodovias AL 101, BR 104 e BR 316 (23).

A motocicleta foi o principal tipo de veículo envolvido na morte de seus ocupantes (26,7%), considerando os laudos cadavéricos com informações detalhadas do(s) veículo(s) envolvido(s), tendo relação de identidade com o de outros estudos (14, 15, 21). A vulnerabilidade e a imprudência de seus condutores, combinada com aumento na venda deste meio de transporte, mais econômico e, portanto, com preços acessíveis à população de baixa renda, vem elevando os índices de mortes violentas no trânsito em nosso País, e também no Estado de Alagoas. Frise-se que boa parcela dos motociclistas utiliza este meio de transporte de forma profissional, estando seu serviço atrelado à produtividade e necessitando assim dirigir com maior rapidez (17).

A natureza do acidente que mais apareceu no levantamento dos dados foi a colisão (27,7%), dado que se assemelha ao que foi deparado na pesquisa de Almeida et al. (1), neste caso com alta incidência (78,1%). É importante referir que 710 laudos (37,03%) não continham esse dado, prejudicando na elaboração e aplicação de medidas preventivas direcionadas para controle deste sinistro.

A principal causa mortis foi o politraumatismo (30,2%), seguida pelo Traumatismo Crânio Encefálico – TCE (26,6%), com similitude, portanto, àquele revelado por Paixão et al (8).

As informações colhidas das fichas cadavéricas carecem de dados, em razão do preenchimento incompleto dos campos dos formulários arquivados no IML, o que limitou a qualificação desejada no estudo, sobretudo o tipo de veículo, o local de ocorrência do acidente e o tipo de acidente. Assim sendo, é meritória a qualificação dos agentes públicos para registrar a descrição discriminada dos dados exigidos no formulário, no que auxiliaria o conhecimento científico da dinâmica dos acidentes e, assim, permitiria a adoção de medidas preventivas capazes de minimizarem o alto grau de infortúnios em Alagoas.

Ademais, a área de abrangência da pesquisa restringiu-se à documentação arquivada no IML Estácio de Lima, que de acordo com a Portaria nº 021/GD/2008 possui área de atuação nos municípios localizados na Região Metropolitana, na Zona da Mata e no Litoral Norte, competindo ao IML de Arapiraca atender aos demais municípios alagoanos, “com a finalidade de disciplinar e ordenar os serviços de recolhimento de cadáveres e realização de exames de corpo de delito” (24).

 

5. CONCLUSÃO

 Os achados no estudo de 1.917 laudos cadavéricos do IML Estácio de Lima, correspondentes ao período de 2011 a 2015, possuem similaridade em comparação a pesquisas do gênero, podendo traçar o seguinte perfil epidemiológico dos acidentes fatais de trânsito de Alagoas: as vítimas mais comuns correspondem a homens, em idade entre 20 e 39 anos, solteiros, pardos e sem nível superior declarado, mediante colisão, no período noturno (18h01min- 00h00min), e nos fins de semana. São recorrentes acidentes fatais com motocicletas, por politraumatismo, em vias públicas municipais.

Apesar de resultados equivalentes com estudos realizados no Brasil, o não preenchimento conclusivo de campos nas fichas cadavéricas reduziu o grau de comparabilidade com o acervo literário adotado na pesquisa frente às variáveis analisadas, sinalizando a necessidade de aperfeiçoamento na atividade de coleta dos dados periciais, a partir da capacitação dos agentes públicos para descrição clara, concisa e coerente dos laudos dos acidentes de trânsito.

A catalogação manual dos acidentes inviabiliza o gerenciamento das causas e efeitos dos acidentes de trânsito em Alagoas, razão pela qual a implantação de sistema informatizado garantiria a percepção tempestiva da dinâmica dos infortúnios. A redução dos riscos, pelas entidades federativas, pode ser efetivamente implementada, com ações continuadas de melhorias no manto asfáltico das rodovias e nas sinalizações horizontal e vertical, e exigência de educação para o trânsito, de modo transversal, em todos os níveis e modalidades de ensino.

Artigo impresso em: 2018-07-19 00:25:14


6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

  1. Almeida RLF, Bezerra Filho JG, Braga JU, Magalhães FB, Macedo MCM, Silva KA. Via, homem e veiculo: fatores de risco associados a gravidade dos acidentes de transito. Saúde Pública [internet]; 2013 [citado 2015 set 15];  47(4):718-731.  Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-8910.2013047003657.
  1. Waiselfisz, JJ.; Centro brasileiro de estudos latino-americanos. Mapa da violência 2013: acidentes de trânsito e motocicletas [internet]. Rio de Janeiro: Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais; 2013 [acesso em 2015 set 12]. Disponível em: http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2013/mapa2013_transito.pdf.
  2. Almeida, ND. Os acidentes e mortes no trânsito causados pelo consumo de álcool: um problema de saúde pública. R Dir Sanit. [internet]; 2014 [citado 2017 ago 08]; 15(2):108-125. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/rdisan/article/view/89322/92195
  3. Malta DC, Berna RTI, Silva MMA, Claro RM, Silva Júnior JB, Reis AAC. Consumo de bebidas alcoólicas e direção de veículos, balanço da lei seca, Brasil 2007 a 2013. Rev. Saúde Pública [Internet]. 2014 ago [citado 2017 Ago 09]; 48(4):692-966.  Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-8910.2014048005633
  4. Gomes, JMO. A nova Lei seca (Lei 12.760/12): análise e desafios para a redução das mortes no trânsito brasileiro. Juiz de Fora. Monografia [Bacharelado em Direito] – Universidade Federal de Juiz de Fora; 2014. Disponível em: https://repositorio.ufjf.br/jspui/handle/ufjf/4378
  5. Morais Neto OL, Montenegro MMS, Monteiro RA, Siqueira Júnior JB, Silva MMA, Lima CM de et al. Mortalidade por acidentes de transporte terrestre no Brasil na última década: tendência e aglomerados de risco. Ciênc. Saúde Coletiva  [Internet]. 2012 Set [citado  2017  Ago  09];  17(9):2223-2236. Diponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232012000900002.
  6. Galvão PVM, Pestana LP, Pestana VM, Spíndola MOP, Campello RIC, Souza EHA. Mortalidade devido a acidentes de bicicletas em Pernambuco, Brasil. Ciênc. saúde coletiva  [Internet]. 2013  Mai [citado  2017  Ago  09]; 18(5):1255-1262. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232013000500010
  7. Paixão LMMM, Gontijo ED, Drumond EF, Friche AAL, Caiaffa WT. Traffic accidents in Belo Horizonte: the view from three different sources, 2008 to 2010. bras. epidemiol.  [Internet]. 2015 Mar [citado 2017 Ago 09]; 18(1):108-122. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201500010009
  8. Kauark FS, Manhães FC, Medeiros, CH. Metodologia da Pesquisa: Um guia prático. Itabuna: Via Litterarum; 2010. p.25-28
  9. Fontelles MJ, Simões MG, Farias SH, Fontelles RGS. Metodologia da pesquisa científica: diretrizes para elaboração de um protocolo de pesquisa. Rev. Para. Med. [internet]. 2009 jul-set [citado 2017 jul 29]; 23(3). Disponível em: http://files.bvs.br/upload/S/0101-5907/2009/v23n3/a1967.pdf
  1. Cavalcanti AL, Monteiro BVB, Oliveira TBS, Ribeiro RA, Monteiro BSB. Mortalidade por acidentes de trânsito e ocorrência de fraturas maxilofaciais. Rev. Bras. Odontol. [Internet]. 2011 jul/dez [citado 2017 jul 15]; 68(2):220-224. Disponível em: http://revista.aborj.org.br/index.php/rbo/article/view/307/260
  2. Abreu AMM, Jomar RT, Thomaz RGF, Guimarães RM, Lima JMB, Figueiro RFS. Impacto da lei seca na mortalidade por acidentes de trânsito. Rev. enferm. [internet]. 2012 jan/mar [citado 2017 jul 15]; 20(1):21-26. Disponível em: http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/enfermagemuerj/article/view/3970/2753
  1. Camargo FC, Hemiko H. Vítimas fatais e anos de vida perdidos por acidentes de trânsito em Minas Gerais, Brasil. Esc. Anna Nery  [Internet]. 2012 Mar [citado  2017  Ago  09];  16(1):141-146. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S1414-81452012000100019.
  2. Silva LLV, Lima RJP, Gomes RM, Tenório GM. Perfil epidemiológico das vítimas de trauma por acidentes com motocicleta atendidas em um hospital geral. Ciências Biológicas e da Saúde [internet]. 2016 Abr [citado em 2017 jan 03]; 3(2):149-160. Disponível em: https://periodicos.set.edu.br/index.php/fitsbiosaude/article/view/2883/1767
  1. Almeida APB, Lima MLC, Oliveira Júnior FJM, Abath MB, Lima MLLT. Anos potenciais de vida perdidos por acidentes de transporte no Estado de Pernambuco, Brasil, em 2007. Epidemiol. Serv. Saúde  [Internet]. 2013  Jun [citado  2017  Ago  09];  22(2): 235-242. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5123/S1679-49742013000200005.Montenegro
  2. World Health Organization. Global status report on road safety 2013: supporting a decade of action [Internet]. Geneva; 2013 [citado 2017 ago 12]. Disponível em: http://www.un.org/en/roadsafety/pdf/roadsafety2013_eng.pdf
  1. Montenegro MMS, Duarte EC, Prado RR, Nascimento AF. Mortalidade de motociclistas em acidentes de transporte no Distrito Federal, 1996 a 2007. Rev. Saúde Pública [Internet]. 2011 Jun [citado 2017 Jan 09]; 45(3):529-538. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102011000300011
  2. Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde-DATASUS. População de 18 a 24 anos por Cor/Raça segundo Escolaridade [Internet]. 2010 [citado 2017 Ago 09]. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?ibge/censo/cnv/escbal.def
  3. Vieira RCA, Hora EC, et al. Levantamento epidemiológico dos acidentes motociclísticos atendidos em um Centro de Referência ao Trauma de Sergipe. Rev Esc Enferm USP [Internet]. 2011 mar [citado 2017 Ago 09]; 45(6): 1359-63.
  4. Neta DSR, Alves AKS, et al. Perfil das ocorrências de politrauma em condutores motociclísticos atendidos pelo SAMU de Teresinha- PI. Rev Bras Enferm [Internet]. 2012 nov/dez [citado 2017 Ago 09]; 65(6): 936-41.
  5. Lima MVN, Oliveira RZ, et al. Óbitos por acidentes de transporte terrestre em município do noroeste do Paraná – Brasil. Rev Bras Med Fam Comunidade [Internet]. 2014 out/dez [citado 2017 Ago 09]; 9(33):350-357.Disponível em: http://dx.doi.org/10.5712/rbmfc9(33)854.
  6. Fey A, von Bahten LC, Becker IC, Furlani LF, Teixeira JVC, Teixeira JVC. Perfil epidemiológico dos óbitos em acidentes de trânsito na região do Alto Vale do Itajaí, Santa Catarina, Brasil. Arquivos Catarinenses de Medicina [internet]. 2011 [citado 2016 set 15]; 40(1): 23-27. Disponível em: http://www.transitobr.com.br/downloads/artigo_augusto_fey_2.pdf
  7. Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes – DNIT. Mapa Multimodal Alagoas [Internet]. 2013 [citado 2017 ago 12]. Disponível em: http://www.dnit.gov.br/download/mapas-multimodais/mapas-multimodais/al.pdf
  8. Centro de Perícias Forenses do Estado de Alagoas – CPFor. Portaria nº 021/GD, de 30 de julho de 2008 [citado 2017 ago 12]. Disponível em http://www.periciaoficial.al.gov.br/legislacao/portarias/Portaria%20no%20021_GD_2008.pdf/view
Jessyca Montenegro Matthews de Lyra

Alzeane de Araujo Lucena

Maria Luisa Duarte



ABMLPM - Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas - afiliada à AMB
Escritório Administrativo - Av. Brigadeiro Luiz Antonio, 278 – 7º andar – Bela Vista
São Paulo – SP – CEP: 01318-901
Fone: (11) 3101-5994 / Celular: (11) 9.7403-4818 (operadora Vivo)

O conteúdo deste site não pode ser reproduzido sem permissão.